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29 de abril de 2018

História De Israel – Teologia 31.128 (Livro 11 Cap 6) ARTAXERXES, SUCEDE A XERXES, SEU PAI, NO REINO DA PÉRSIA. REPUDIA A RAINHA VASTI, SUA MULHER, E DESPOSA ESTER, SOBRINHA DE MARDOQUEU. HAMÃ PERSUADE ARTAXERXES A EXTERMINAR TODOS OS JUDEUS E ENFORCAR MARDOQUEU, MAS ELE MESMO É ENFORCADO. MARDOQUEU É POSTO EM SEU LUGAR COM GRANDE AUTORIDADE.

História De Israel – Teologia 31.128

 
CAPÍTULO 6

ARTAXERXES, SUCEDE A XERXES, SEU PAI, NO REINO DA PÉRSIA. REPUDIA A RAINHA VASTI, SUA MULHER, E DESPOSA ESTER, SOBRINHA DE MARDOQUEU.
HAMÃ PERSUADE ARTAXERXES A EXTERMINAR TODOS OS JUDEUS E
ENFORCAR MARDOQUEU, MAS ELE MESMO É ENFORCADO. MARDOQUEU É
POSTO EM SEU LUGAR COM GRANDE AUTORIDADE.

446. Ester 1. Depois da morte do rei Xerxes, Ciro, seu filho, que os gregos chamam Artaxerxes,* sucedeu-o. Os judeus correram grande perigo de ser inteiramente exterminados durante o seu reinado, conforme vamos narrar. Antes, porém, falaremos do soberano, dizendo que ele desposou uma mulher judia que era de família real e à qual toda a nossa nação reconhece dever, abaixo de Deus, a sua salvação. Quando esse novo rei subiu ao trono de seu pai e estabeleceu governadores nas cento e vinte e sete províncias sujeitas ao império, desde as índias até a Etiópia, ele resolveu, no terceiro ano de seu reinado, entreter a eles e aos amigos durante cento e oitenta dias na cidade de Susã, capital da Pérsia, com uma suntuosidade extraordinária. Os embaixadores de várias nações lá ficaram durante sete dias.
Os banquetes realizaram-se sob os pavilhões sustentados por colunas de ouro e de prata e cobertos de ricos tapetes, tão espaçosos que podiam abrigar um grande número de pessoas. Toda a baixela de que se serviam era de ouro e enriquecida de pedras preciosas. Artaxerxes ordenou aos seus serventes que não obrigassem ninguém a beber segundo o costume dos persas, mas deixassem a cada qual a liberdade de fazer como quisesse. Mandou ao mesmo tempo proclamar por toda parte de seu território que o povo deixasse de trabalhar durante alguns dias e pensasse apenas em se regozijar e em desejar-lhe um feliz reinado.
A rainha Vasti, ao mesmo tempo, cuidava das damas de seu palácio com magnificência igual à que o rei dispensava aos grandes e aos príncipes. Artaxerxes, querendo mostrar que ela sobrepujava a todas as outras mulheres em beleza, mandou que comparecesse à grande assembléia. Mas como o costume dos persas não permite às mulheres se apresentarem diante de estrangeiros, ela decidiu não aparecer, embora o rei enviasse diversas vezes os eunucos para buscá-la.
Essa teimosia o aborreceu. Ele saiu do banquete, reuniu os magos, que entre os persas interpretam as leis, e queixou-se a eles de ter várias vezes pedido à rainha que comparecesse ante a assembléia e que ela não queria obedecer. Ordenou-lhes então que dissessem a que a lei se obrigava naquele caso. Memucã, um deles, respondeu que aquela desobediência da rainha e a injúria que ela fizera ao rei não somente atingia e ofendia o soberano, mas também a todos os persas. Porque as suas mulheres, vendo que a rainha não temia ofender tão poderoso príncipe com aquele insolente desprezo, seriam também levadas a des-prezar os maridos, para imitar-lhe o exemplo. E assim, aconselhava-o a castigá-la severamente e a mandar publicar em todo o seu território o que fosse determinado contra ela. Os outros magos, depois dessa opinião, deram também cada qual o seu parecer e chegaram à conclusão de que o rei deveria repudiar a rainha e desposar uma outra.

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* A Bíblia chama-o Assuero.

447. Ester 2. Tal determinação deixou o príncipe muito aflito porque, de um lado, ele não queria contrariar as leis e, de outro, nutria uma violenta paixão pela rainha, por causa de sua extrema beleza. Seus amigos, vendo-o tão agitado, aconselharam-no a afastar do coração aquele afeto que o atormentava inutilmente, a mandar procurar em todas as províncias as mais belas jovens e a despo-sar a que mais lhe agradasse. O amor que teria por ela diminuiria cada vez mais a paixão por Vasti, até desaparecer por completo. O rei aprovou a proposta e mandou imediatamente, para esse fim, que em todo o seu território se escolhessem as mais belas jovens.
Trouxeram-lhes as moças mais formosas, dentre as quais distinguia-se uma da Babilônia, de nome Ester, que não tinha nem pai nem mãe e fora criada por seu tio, de nome Mardoqueu, da tribo de Benjamim, um dos mais ilustres dentre os judeus. A beleza dessa moça, a sua modéstia e a sua graça eram tão extraordinárias que atraíam os olhares e a admiração de todos. Puseram-na entre quatrocentas outras que foram entregues ao cuidado dos eunucos, e tudo se fez para que fossem cercadas de todos os bens. Durante seis meses, foram alvo de todas as atenções. Eram bem alimentadas e cuidadas e adornavam-se e perfumavam-se com requinte. Passado esse tempo, julgou-se que já estavam em condições de agradar ao rei. Assim, eles lhe mandavam uma por dia, a qual o príncipe devolvia no dia seguinte.
Quando chegou a vez de Ester, Artaxerxes agradou-se tanto dela que a escolheu para esposa, e as bodas foram celebradas no sétimo ano de seu reinado, no décimo segundo mês, de nome adar. Ele mandou em seguida aos chamados agares que proclamassem por todo o seu território que o povo deveria festejar o seu matrimônio e tratou magnificamente durante um mês os principais cidadãos, tanto dos persas e dos medos quanto dos de outras nações que lhe estavam sujeitas. Depois de instalar a nova rainha em seu palácio, pôs-lhe a coroa na cabeça e amou-a sempre como sua esposa, sem lhe perguntar de que nação ela era e sem que ela também nada dissesse a esse respeito. Mardoqueu, que a amava como se fosse sua própria filha, deixou a Babilônia para ir morar em Susã. E não se passava um dia sem que ele desse uma volta ao redor do palácio, para ter notícias dela.
Nesse entretempo, o rei publicou uma ordem pela qual proibia a todos os de sua casa, sob pena de morte, vir procurá-lo sem serem chamados quando ele estivesse assentado no trono. Guardas armados junto de sua pessoa tinham ordem para afastar qualquer um que ousasse se aproximar. Ele empunhava uma vara de ouro e, quando queria conceder graça a alguém que se apresentara sem ser chamado, ele o tocava com ela. A pessoa então deveria beijá-la, e assim evitava a morte.
Algum tempo depois, dois eunucos, chamados Bigtã e Teres, fizeram uma conspiração para matar o rei. Um judeu de nome Barnabas, que servia a um deles, avisou Mardoqueu. Este comunicou-o imediatamente ao rei, por meio de sua sobrinha, a rainha Ester. Eles foram presos e enforcados. Artaxerxes não recompensou a Mardoqueu pelo serviço prestado, mandou apenas registrar o fato em suas crônicas e permitiu-lhe entrar no palácio como se fosse um de seus familiares.
Ester 3. Um amalequita chamado Hamã, filho de Hamedata, desfrutava então tal prestígio que quando ele entrava no palácio os persas e os estrangeiros eram obrigados, por ordem do rei, a se prostrar diante dele. Mardoqueu era o único que não lhe prestava essa homenagem, porque a lei de Deus o proibia. Hamã, tendo notado isso, perguntou-lhe de que nação ele era. Sabendo que era judeu, ficou muito irritado e exclamou: "Ora! Os persas, que são livres, põem o joelho em terra diante de mim, e esse escravo não se digna fazer o mesmo!" Como ele era por natureza inimigo mortal dos judeus, porque os amalequitas haviam sido outrora vencidos por eles, o seu furor cresceu tanto que seria muito pouco, para a sua vingança, mandar matar Mardoqueu: seria necessário exterminar toda a nação judaica.
Ele foi então falar com o rei e disse-lhe que existia espalhado por todo o seu território um certo povo que era inimigo de todos os demais e cujas leis, cerimônias e costumes eram totalmente estranhos, sendo odiosos aos outros homens, e que o maior favor que podia fazer aos seus súditos era exterminá-lo. Mas, para que as rendas do soberano não fossem diminuídas com isso, ele lhe oferecia de boa mente quarenta mil talentos de prata, por prestar tão grande serviço, ou seja, livrar o império de tal peste. O rei respondeu que, quanto ao dinheiro, ele o restituiria de boa vontade. E, quanto ao que se referia àquela classe de gente, deixava tudo ao critério de Hamã.
Hamã, depois de haver obtido o que desejava, mandou publicar, em nome do rei, em todo o seu território um edito, cujas palavras eram estas: "O grande rei Artaxerxes, aos cento e vinte e sete governadores que constituímos desde as índias até a Etiópia, saudação. Muitas e várias nações estão sujeitas ao nosso império, e estendemos o nosso domínio sobre a terra o quanto quisemos, porque, em vez de tratar os nossos súditos com rigor, não temos mais prazer que lhes dar todas as demonstrações de nossa estima e bondade, fazendo-os desfrutar muita paz. E, para isso, envidamos os maiores esforços para que a sua felicida-de seja eterna. Por isso, tendo sido avisados por Hamã, a quem honramos mais que a qualquer outro com o nosso afeto, pela sua fidelidade, probidade e sabedoria, de que há um povo espalhado por toda a terra o qual é inimigo de todos os outros e possui leis e costumes próprios e tem por inclinação natural um grande ódio aos reis, não tolerando dominação alguma, nem a nossa, nem a prosperidade do nosso império, desejamos e ordenamos que quando Hamã, a quem consideramos como pai, vos der a ordem, extermineis inteiramente esse povo, com as suas mulheres e filhos, sem poupar um sequer e sem que a compaixão seja mais forte sobre o vosso Espírito que a obediência. O que entendemos seja feito no décimo terceiro dia do décimo segundo mês do presente ano, a fim de que, sendo mortos num mesmo dia esses inimigos públicos, possais passar em paz e tranqüilidade o resto de vossas vidas".
Depois que essa carta em forma de edito foi publicada por toda parte, todos se prepararam para exterminar os judeus no tempo determinado e se dispuseram a fazer a mesma coisa na cidade de Susã, capital da Pérsia, que por isso estava muito agitada. No entanto, o rei e Hamã passavam os dias em banquetes.
Ester 4. Quando Mardoqueu soube do conteúdo daquele cruel edito, rasgou as próprias vestes, cobriu-se com um saco, espalhou cinza sobre a cabeça e saiu clamando por toda a cidade que era horrível querer destruir daquele modo uma nação inocente. Mas ele foi obrigado a ficar à porta do palácio, porque no estado em que se encontrava não lhe foi permitido entrar. A aflição de todos os judeus não era menor em todas as outras cidades onde o edito fora publicado, e, em tão geral desolação, o ar repercutia gritos e lamentações. A rainha, perturbada por saber que Mardoqueu estava à porta do palácio no deplorável estado em que o descrevi, mandou-lhe outras vestes, para que as trocasse. Ele, porém, as recusou, porque a causa de seu penar subsistia ainda e ele não podia se desfazer dos sinais.
A princesa, ante a recusa, mandou o eunuco Hataque perguntar o motivo de tão grande aflição e de ele não querer deixar aqueles trajes tão tristes. Mardoqueu mandou dizer-lhe pelo mesmo eunuco que Hamã oferecera ao rei uma grande soma de dinheiro a fim de obter permissão para exterminar todos os judeus e que sua majestade lhe concedera a licença. Assim, em Susã e em todas as províncias do império fora publicado um edito, do qual lhe mandava uma cópia. Tratava-se portanto da ruína de toda a nação judaica, na qual a própria rainha tinha a sua origem. Ele suplicava que ela não temesse humilhar-se a ponto de se prostrar aos pés do rei para suplicar-lhe graça, pois somente ela o podia fazer. Além disso, Hamã, ao qual ninguém igualava em prestígio e em autoridade, fazia continuamente crescer a irritação do rei contra eles. A rainha respondeu que a menos que o rei solicitasse não podia ir ter com ele, sob pena de perder a vida, caso ele não a tocasse com a vara de ouro que tinha na mão.
Mardoqueu então rogou ao eunuco que dissesse à rainha que ela não devia, em tal contingência, considerar tanto a sua vida quanto a de sua nação. Se ela o fizesse, Deus não deixaria de ter cuidado dela, mas se ela fosse insensível à ruína de seu próprio povo, Ele mesmo a castigaria, destruindo-a com toda a nação. A rainha, comovida por essas palavras, mandou dizer-lhe pelo mesmo eunuco que reunisse todos os judeus que estavam em Susã e ordenasse um jejum de três dias e que fizessem orações a Deus em favor dela. Ela faria o mesmo com as outras mulheres e iria em seguida falar com o rei sem ser chamada, o que talvez lhe custasse a vida.
Mardoqueu executou a ordem e durante o jejum rogou a Deus que não permitisse a destruição de seu povo, mas o ajudasse naquela ocasião, tal como fizera tantas outras vezes, que lhes perdoasse os pecados e que os livrasse de tão grave perigo, pois nele não se haviam metido por culpa própria. Disse ainda: "Vós sabeis, meu Deus, que a cólera de Hamã, que jurou a nossa ruína, provém de eu não ter querido violar as vossas santas leis, prostrando-me diante dele para lhe prestar uma homenagem que somente a vós é devida".
Essa fervorosa oração foi acompanhada por todo o povo, que pedia a Deus com não menor ardor que os ajudasse naquela grave contingência. A rainha, por seu lado, em vestes de luto, passou esses três dias prostrada por terra, sem comer nem beber e sem cuidar de sua pessoa. Ela pedia a Deus, sem cessar, que tivesse compaixão dela, pondo-lhe na boca o que devia dizer ao rei e tornando-a mais agradável aos seus olhos do que nunca, a fim de que, em tal perigo, pudesse não somente atrair a sua clemência sobre ela e sobre os de sua nação, mas fazer ele voltar a sua cólera contra os inimigos, de modo que caíssem na mesma desgraça em que os queriam precipitar.
Ester 5. Depois de assim orar durante três dias, ela tirou as vestes tristes e revestiu-se de outras, magnificamente ricas, às quais ajuntou os ornamentos com os quais se podem enfeitar uma grande rainha. Foi em seguida falar com o rei, acompanhada somente por suas damas, sobre uma das quais se apoiava, enquanto outra sustentava a cauda de suas vestes, cujas dobras pareciam flutuar sobre o pavimento. Via-se um modesto rubor tingir as suas faces, e a majestade e a beleza resplandeciam igualmente em seu temor. Quando ela viu o soberano assentado no trono resplandecente de pedras e jóias a contemplá-la, quem sabe, de maneira pouco favorável, ficou tomada de tanto medo que as forças quase lhe faltaram, e ela teve de se apoiar na mulher que vinha ao seu lado.
O rei, cujo coração Deus sem dúvida tocou naquele momento, temeu tanto por ela que desceu apressadamente do trono e a tomou nos braços. E, com palavras repassadas de amor e ternura, disse-lhe que nada temesse por ter vindo sem ser chamada, porque aquela lei havia sido feita somente para os seus súditos, e não para ela, que com ele partilhava a coroa e por isso estava acima de todas as leis. Depois de assim falar, ele pôs-lhe o cetro na mão e, para tranqüilizá-la com-pletamente e não transgredir a lei, tocou-a docemente com a vara de ouro.
Então a virtuosa rainha voltou a si, tomou ânimo e falou deste modo: "Não vos posso dar outra razão do desfalecimento que de mim se apoderou senão a grande surpresa de ver-vos cheio de glória, de beleza e de majestade e ao mesmo tempo tão temível. Não sei o que se passou comigo". Ela pronunciou essas poucas palavras com uma voz tão fraca que a apreensão do rei aumentou, e ele tudo fez para tranqüilizá-la, garantindo que concederia qualquer favor que ela pedisse: ainda que fosse metade de seu reino, lhe daria com prazer. Ela respondeu que o único favor que almejava era obter consentimento para cear com ele no dia seguinte, e que ele levasse também Hamã. Ele o concedeu de boa mente. E, quando se puseram à mesa, ele insistiu em que ela dissesse o que desejava, asseverando-lhe ainda que nada havia que ele não lhe concedesse com prazer, mesmo que fosse uma parte de seu reino. Ela suplicou que o seu pedido fosse protelado até o dia seguinte e que ele lhe concedesse ainda a honra de vir novamente cear com ela, trazendo Hamã em sua companhia. Isso ela também obteve facilmente.
Hamã estava muito satisfeito ao sair do banquete, pela honra insigne que a rainha lhe concedia, escolhendo a ele somente para ter a honra de comer com ela à mesa do rei. Contudo, encontrando Mardoqueu no palácio, ficou fora de si pela cólera, ao constatar que ele continuava a não se prostrar diante dele. Quando voltou ao seu aposento, contou à sua mulher, de nome Zeres, e aos seus amigos o favor singular que o rei e a rainha lhe haviam concedido, convidando a ele somente para sentar-se à sua mesa e repetindo o convite também para o dia seguinte. Porém ele acrescentou: "Como poderia eu estar plenamente satisfeito, tendo encontrado Mardoqueu, o judeu, no palácio, que tem a ousadia de me desprezar?" Sua mulher respondeu-lhe que, para livrar-se dele, devia mandar erguer uma forca de cinqüenta côvados de altura e pedir ao rei licença para nela pendurar Mardoqueu no dia seguinte. Ele aprovou o conselho e mandou erguer a forca em sua casa, o que foi feito.
Ester 6. Deus, que via o que estava para acontecer, zombou de sua detestável esperança. Para confundir os seus desígnios, fez com que na noite seguinte o rei não pudesse dormir e que para empregar utilmente o tempo para o bem de sua nação mandasse trazer alguns registros, nos quais ele e os seus predecessores faziam escrever as coisas mais importantes, a fim de lhes conservar a memória. Ele ordenou ao seu secretário que o lesse e lá encontrou que se haviam dado muitas terras a um homem para recompensá-lo por uma ação insigne. Um outro recebera grandes presentes por haver se mostrado fiel, e Mardoqueu descobrira a conjuração feita pelos eunucos Bigtã e Teres.
O secretário queria continuar a ler, mas o rei o deteve, para saber se havia menção de alguma recompensa a Mardoqueu por tão grande serviço. O secretário respondeu que sobre isso nada havia escrito, e o soberano mandou-o então suspender a leitura. Perguntou em seguida a um dos oficiais da guarda que horas eram e mandou que fossem ver se havia à porta do palácio algum daqueles aos quais ele mais estimava. Hamã lá estava, porque viera pedir a morte de Mardoqueu. O rei mandou chamá-lo e, quando ele entrou, disse-lhe: "Como estou certo de que ninguém tem mais afeto por mim do que vós, rogo-vos que me digais o que posso fazer para honrar de maneira digna de mim um homem ao qual estimo muitíssimo".
Hamã, que sabia que nenhum outro era mais estimado pelo rei, julgou logo que aquelas palavras se referiam a ele. Assim, persuadido de que as suas sugestões seriam aceitas e ainda reverteriam em seu favor, respondeu: "Se vossa majestade quer cumular de favores aquele que merece toda a vossa estima, ordenai que o façam montar sobre um de vossos cavalos vestido à maneira dos reis e com uma cadeia de ouro e que um daqueles que vossa majestade mais estima caminhe diante dele por toda a cidade, clamando como um arauto: E assim que se deve honrar aquele a quem o rei concede os seus favores".
O rei acolheu com alegria essa sugestão, que Hamã pensava estar dando em favor de si mesmo, e disse-lhe: "Tomai então um de meus cavalos e levai um de meus mantos de púrpura e uma cadeia de ouro para pôr no judeu Mardoqueu. E, estando ele assim revestido como acabais de descrever, ide diante dele, clamando como um arauto o que julgastes conveniente dizer, pois como não amo ninguém mais do que vós, é justo que sejais o executor do sábio conselho que me destes para recompensar um homem ao qual sou devedor da vida".
Hamã não ficou menos surpreendido com essas palavras do que teria ficado se fosse atingido por um raio. Sendo, porém, obrigado a obedecer a uma ordem tão clara, saiu do palácio com um cavalo, uma veste de púrpura e uma cadeia de ouro e foi procurar Mardoqueu. Encontrou-o perto da porta e ordenou-lhe que tomasse as vestes reais, a cadeia e montasse no cavalo. Mardoqueu, que não tinha a menor idéia do que se passava e do que o levava a falar daquele modo, pensou que Hamã estava zombando dele e respondeu: "Homem mau, o mais perverso de todos os homens! É assim que zombais de nossa infelicidade?" Mas, quando ele soube que o rei o honrava com aquele favor em consideração ao serviço que lhe prestara, vestiu os trajes reais, pôs a cadeia, montou no cavalo e assim percorreu a cidade, levado por Hamã, que clamava diante dele: "É assim que se deve fazer àquele a quem o rei deseja honrar".
Mardoqueu saiu em seguida do palácio, e Hamã, coberto de confusão, foi com lágrimas contar à mulher e aos amigos o que lhe havia acontecido. Eles disseram que, como parecia visivelmente que Deus ajudava Mardoqueu, ele não podia mais esperar vingar-se dele. Ainda falavam desse assunto quando dois eunucos da rainha vieram dizer-lhe que se apressasse para ir ao banquete. Um deles, de nome Harbona, vendo a forca levantada, perguntou o motivo e soube que estava preparada para Mardoqueu e que Hamã queria pedir ao rei para o executar ali.
Ester 7. O rei, no meio do banquete, disse à rainha que lhe pedisse o que quisesse, pois podia estar certa de o obter. Ela respondeu que o perigo em que ela e todos os de sua nação se encontravam não lhe permitia falar de outra coisa e que não tomaria a liberdade de importuná-lo se se tratasse de condená-los todos a uma dura escravidão, pois tal aflição, por maior que fosse, seria de algum modo suportável. Tratava-se, porém, de sua inteira destruição e do extermínio de todo o seu povo, por isso ela não podia, em tão extremo perigo, deixar de recorrer à sua clemência.
O rei, surpreendido com essas palavras, perguntou-lhe quem havia concebido aquela trama. Ela respondeu que fora Hamã, o qual, pelo ódio mortal que tinha aos judeus, deliberara exterminá-los. A surpresa do rei foi tão grande que ele se levantou da mesa e, muito perturbado, foi para o jardim. Então Hamã não duvidou mais de que estava perdido. Suplicou à rainha que o perdoasse e, como naquele momento se inclinava, caiu junto do assento onde ela estava. O rei entrou e, vendo-o naquela posição, exclamou, ainda mais irritado: "Celerado! O mais pérfido de todos os homens! Quer ainda violar a rainha?!" Essas palavras infundiram tão grande terror no Espírito e no coração de Hamã que ele nada pôde responder. O eunuco Harbona, que estava presente, disse ao rei que quando estivera na casa de Hamã, para chamá-lo ao banquete, vira uma forca de cinqüenta côvados erguida na sua casa e soubera por um de seus servidores que era destinada a Mardoqueu.
O rei ordenou que Hamã nela fosse enforcado imediatamente, para castigá-lo com justiça com o mesmo suplício que ele tão injustamente queria infligir a outro. Nisso eu não saberia admirar suficientemente a sabedoria e o proceder de Deus, que não somente castigou Hamã como ele merecia, mas empregou para isso o mesmo expediente de que ele planejara servir-se para se vingar de seu inimigo. Os maus deveriam aproveitar-se desse exemplo, pois vemos o mal que eles desejam para os outros cair muitas vezes sobre a cabeça deles próprios.
Hamã assim veio a perecer, por haver insolentemente abusado da excessiva afeição com que Artaxerxes o honrava. O soberano deu à rainha o confisco de todos os seus bens. Sabendo então que Mardoqueu era tio da princesa, entregou-lhe o anel que antes Hamã usava. A rainha deu-lhe também todos os bens de Hamã e suplicou ao rei que a tirasse da dúvida em que a punham as cartas que aquele malvado escrevera em nome do rei a todas as províncias do império para fazer massacrar todos os judeus num mesmo dia, pois a morte ser-lhe-ia muito mais doce que sobreviver à ruína de seu povo. O soberano não teve dificuldade em lhe conceder o que ela pedia. Prometeu escrever outras cartas como ela o desejasse, selá-las com o seu sinete e enviá-las a todas as províncias, a fim de que ninguém ousasse desobedecer. Mandou depois escrever as cartas e endereçá-las aos governadores e magistrados das cento e vinte e sete províncias do império.
As cartas estavam assim exaradas: "O grande rei Artaxerxes, a todos os governadores de nossas províncias e a todos os nossos oficiais, saudação. Acontece muitas vezes que aqueles aos quais os reis, por um excesso de bondade, cumulam de benefícios e de honras deles abusam, não somente desprezando os seus inferiores, mas se elevando com insolência contra os seus próprios benfeitores, como se tivessem deliberado abolir toda espécie de gratidão entre os homens e julgassem poder enganar a Deus e esquivar-se à justiça. Assim, eles, quando o favor de seus príncipes os constitui em autoridade no governo de seus Estados, em vez de cuidar somente do bem público, não temem surpreendê-los pelo excesso de suas inimizades particulares e nem receiam em oprimir os inocentes com calúnias. E isso não é apenas uma idéia ou simples suposição ou exemplos passados, mas um crime que os nossos próprios olhos testemunharam e que nos obriga a no futuro não prestar fé tão facilmente a qualquer acusação, mas cuidar antes de indagar da verdade, a fim de castigar severamente os culpados e proteger os inocentes, julgando de uns e de outros por suas ações, e não pelas palavras. Hamã, filho de Hamedata, amalequita de nacionalidade e por isso estrangeiro, e não persa, educado por nós com tal honra que o chamávamos nosso pai, razão pela qual havíamos ordenado que todos se prostrassem diante dele, e considerado o primeiro depois de nós, não pôde conservar-se em tanta honra nem guardar moderação em tão grande prosperidade. Sua ambição levou-o a atentar contra o nosso país, chegando mesmo a querer persuadir-nos de mandar matar Mardoqueu, a quem devemos a vida, e a procurar, com os seus artifícios, fazer a rainha Ester, nossa esposa, correr o mesmo perigo, a fim de que, privando-nos das pessoas mais queridas, afeiçoadas e fiéis, ele pudesse apoderar-se da coroa. Como, porém, reconhecemos que os judeus, cuja ruína ele nos fez decretar, não são culpados, mas, ao contrário, observam uma disciplina muito santa e adoram ao Deus que nos pôs o cetro nas mãos, tal como nas de nossos predecessores, e que conserva este império, não nos contentamos em apenas isentar esse povo do castigo que lhe seria infligido pelas cartas que Hamã nos persuadiu a escrever, das quais não deveis fazer nenhuma conta, mas ordenamos que os trateis com muita honra. Assim, para fazer-lhes justiça e obedecer à vontade de Deus, que nos governa e nos manda castigar os crimes, mandamos enforcar às portas de Susã esse pérfido homem. Ordenamos que cópias destas cartas sejam levadas a todas as províncias, a fim de que todos sejam informados de nossa vontade e deixem viver em paz os judeus na observância de suas leis, e que eles sejam até mesmo auxiliados na vingança que lhes permitimos tomar dos ultrajes que sofreram durante esse tempo de amargura, escolhendo para esse fim o décimo terceiro dia do décimo segundo mês, de nome adar, em que Deus quer torná-los felizes — o mesmo dia que fora destinado à sua completa ruína. Quanto a nós, desejamos que esse dia traga felicidade a todos os que nos são fiéis e seja para sempre um sinal do devido castigo aos maus. Todas as nações e cidades saberão também que os que deixarem de obedecer ao determinado nas presentes cartas serão destruídos pelo ferro e pelo fogo. E, para que ninguém possa duvidar, queremos que elas sejam publicadas em todas as terras de nosso domínio, a fim de que os judeus se preparem para a vingança contra os seus inimigos, no dia que determinamos".
Logo que essas cartas foram escritas, enviaram-se mensageiros a levá-las por toda parte, com a maior rapidez possível. Mardoqueu, ao mesmo tempo, saiu do palácio real vestido majestosamente, com uma coroa de ouro na cabeça e uma cadeia de ouro. Os judeus que estavam em Susã, vendo o grande prestígio que ele desfrutava, tomavam também parte na sua felicidade. Os judeus das províncias, para onde as cartas do rei haviam sido levadas, consideraram-nas, em transportes de alegria, uma luz favorável que lhes anunciava a libertação, e os seus inimigos sentiram tanto medo do ressentimento deles que vários se fizeram cir-cuncidar, a fim de não perecer. Os correios do rei não deixaram de comunicar aos judeus que eles podiam, no décimo terceiro dia do décimo segundo mês, ao qual chamamos adar, e os macedônios, distro, vingar-se impunemente dos inimigos. Assim, não havia príncipe, governador, grande ou magistrado que não prestasse honras aos judeus, de tanto que eles temiam Mardoqueu.
Quando chegou o dia marcado para a vingança dos judeus, eles mataram, em Susã, cerca de quinhentos homens. O rei disse-o à rainha e perguntou-lhe se ela estava satisfeita, porque nada havia que ele não fizesse para contentá-la. Ela rogou-lhe que prolongasse a vingança até o dia seguinte e mandasse enforcar os dez filhos de Hamã. Ele a satisfez, e assim, no décimo quarto dia daquele mesmo mês, os judeus mataram ainda em Susã cerca de trezentos homens, sem tocar em coisa alguma de seus bens. O número dos que eles mataram no dia precedente, em todas as outras cidades, foi de setenta e cinco mil. Empregaram o dia seguinte em regozijar-se com banquetes, e, ainda hoje, os judeus espalhados por todo o mundo solenizam esse dia e enviam uns aos outros parte do que é servido nas festas e nos banquetes.
Mardoqueu escreveu a todos os judeus súditos do rei Artaxerxes que soleni-zassem aqueles dois dias e ordenassem aos seus descendentes fazer o mesmo, para que fosse conservada a memória daquele fato, pois era muito justo que, tendo o ódio mortal de Hamã feito com que corressem o grande perigo de serem exterminados, eles agradecessem a Deus para sempre, não somente por tê-los salvo do furor de seus inimigos, mas por lhes providenciar um meio de se vingarem deles. Os judeus deram àquele mesmo dia o nome de Purim, isto é, "dia de conservação", porque eles haviam sido milagrosamente preservados. O prestígio de Mardoqueu crescia sempre, e o rei o elevou a tal grau de autoridade que ele governava, sob dependência do soberano, todo o reino e tinha também todo poder perante a rainha, de modo que a felicidade dos judeus ia muito além do que eles podiam desejar.
O que acabo de narrar foi o que aconteceu de mais importante à nossa nação durante o reinado de Artaxerxes.


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