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2 de julho de 2018

História De Israel – Teologia 31.255 (Livro 18 Cap 8) DIVERSAS CIRCUNSTÂNCIAS, PELAS QUAIS AGRIPA, COGNOTNINADO O GRANDE, FILHO DE ARISTOBULO E NETO DE HERODES, O GRANDE, E DE MARIANA, FOI CONSTITUÍDO REI DOS JUDEUS PELO IMPERADOR CAIO, COGNOMINADO CALÍGULA, LOGO DEPOIS QUE ESTE SUCEDEU A TIBÉRIO.

História De Israel – Teologia 31.255

 
CAPÍTULO 8

DIVERSAS CIRCUNSTÂNCIAS, PELAS QUAIS AGRIPA, COGNOTNINADO O
GRANDE, FILHO DE ARISTOBULO E NETO DE HERODES, O GRANDE, E DE
MARIANA, FOI CONSTITUÍDO REI DOS JUDEUS PELO IMPERADOR CAIO,
COGNOMINADO CALÍGULA, LOGO DEPOIS QUE ESTE SUCEDEU A TIBÉRIO.

786. Pouco antes da morte de Herodes, o Grande, Agripa, seu neto e filho de Aristobulo, foi a Roma. Como ele freqüentemente estava à mesa com Druso, filho do imperador Tibério, conquistou a sua amizade e caiu também no agrado de Antônia, mulher de Druso, irmão de Tibério, e mãe de Germânico e de Cláudio, que depois foi imperador, por meio de Berenice, sua mãe, pela qual tinha ela uma afeição muito particular. Embora Agripa fosse de natureza muito liberal, não ousava demonstrá-lo vivendo ainda a sua mãe, para não incorrer em sua indignação. Logo após a sua morte, porém, quando nada mais havia que o detivesse, fez tantas despesas em banquetes e em liberalidade excessiva, principalmente com os libertos de César, dos quais queria granjear a estima, que se sentiu esmagado pelas dívidas e importunado por credores, sem poder satisfazê-los. O jovem Druso morreu nesse mesmo tempo, e Tibério proibiu a todos os que esse príncipe havia amado de se apresentar diante dele, porque a presença deles renovava-lhe o sofrimento.
Assim, Agripa foi obrigado a voltar à Judéia, e a vergonha levou-o a se retirar para o castelo de Malata, na Iduméia, decidido a ali passar miseravelmente a vida. Cipro, sua mulher, fez o que pôde para dissuadi-lo dessa idéia e escreveu a Herodias, irmã de Agripa, que desposara Herodes, o tetrarca, pedindo-lhe que a ajudasse, como ela fazia, por seu lado, embora tivesse menos bens. Herodes e Herodias mandaram logo chamar Agripa e deram-lhe uma certa soma, bem como a principal magistratura de Tiberíades, de modo que pudesse manter-se com certa honra naquela cidade. Embora isso não fosse o suficiente para contentar Agripa, Herodes arrefeceu-se tanto no desejo de ajudá-lo que perdeu a vontade de continuar a lhe prestar auxílio. E um dia, depois de ter bebido demais num banquete em que estavam juntos, em Tiro, lançou-lhe em rosto a sua pobreza e o fato de que dependia dele para comer.
Agripa, não podendo tolerar semelhante ultraje, foi procurar Flaco, governador da Síria, que fora cônsul e com o qual havia feito amizade em Roma. Ele o recebeu muito bem. Antes, porém, já havia recebido Aristóbulo, irmão de Agripa, do mesmo modo, sem que a inimizade que havia entre eles o impedisse de manifestar igualmente o seu afeto a um e a outro. Mas Aristóbulo persistiu de tal modo em sua ira que não teve sossego enquanto não incutiu no espírito de Flaco a aversão para com Agripa, o que aconteceu pelo motivo que passo a expor.
Os moradores de Damasco entraram em litígio com os de Sidom, por causa de seus limites. A questão devia ser julgada por Flaco, e eles ofereceram a Agripa uma grande soma para que ele os ajudasse com o seu prestígio junto dele. Agripa prometeu fazer tudo o que pudesse em favor deles. Aristóbulo soube-o e avisou Flaco, o qual, depois de se informar, constatou que tudo era verdade. Assim, pela perda de sua amizade, Agripa recaiu numa extrema miséria e retirou-se a Ptolemaida, onde, não tendo com o que viver, resolveu voltar a Itália. Mas como lhe faltava o dinheiro, disse a Márcias, seu liberto, que fizesse todo o possível para consegui-lo em empréstimo.
Esse homem foi procurar Proto, liberto de Berenice, mãe de Agripa, que esta legara em seu testamento a Antônia, fazendo com que ela o recebesse ao seu serviço, e rogou-lhe que lhe emprestasse dinheiro, sob sua palavra. Proto respondeu-lhe que Agripa já lhe devia e, tendo já obtido de Márcias uma nota de compromisso de vinte mil dracmas áticas, entregou-lhe somente dezessete mil e quinhentas, retendo consigo as outras duas mil e quinhentas, sem que Agripa se pudesse opor. Depois de apanhar essa soma, partiu para Antedom. Encontrando um navio, Agripa preparava-se para continuar a viagem, quando Herênio Capito, que tinha em Jamnia a superintendência dos negócios, enviou soldados para fazê-lo pagar trezentas mil peças de prata, que lhe haviam sido emprestadas do tesouro do imperador quando ele estava em Roma.
Agripa garantiu-lhes que não deixaria de pagar, mas logo que veio a noite mandou levantar âncora e tomou o caminho de Alexandria. Ao chegar, pediu a Alexandre, que era alabarche,* que lhe emprestasse duzentas mil peças de prata. Ele respondeu que não lhe emprestaria, mas que não recusaria o empréstimo a Cipro, sua mulher, porque admirava-lhe a virtude e o amor pelo marido. Assim, ela lhe foi a caução, e Alexandre deu-lhe cinco talentos, com a promessa de lhe entreaar o resto em Putéoli. não iuloando conveniente confiar-lhe tudo na mesma hora, por causa de sua prodigalidade. Cipro, então, vendo que nada mais impediria o marido de ir à Itália, voltou com os filhos, por terra, para a Judéia.

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* O primeiro cargo da magistratura, em Alexandria.

Quando Agripa chegou a Putéoli, escreveu ao imperador, que então estava em Capréia,* dizendo que viera prestar-lhe as suas homenagens e rogando consentimento para que fosse encontrá-lo. Tibério respondeu logo e de maneira muito favorável, declarando estar alegre com a sua volta e que ele podia vir quando quisesse. E, se a carta era delicada, a maneira como o recebeu depois não foi menos gentil, pois o abraçou e mandou-o hospedar-se em seu palácio. No dia seguinte, porém, Tibério recebeu uma carta de Herênio, pela qual lhe comunicava que, havendo insistido com Agripa a fim de que fossem pagas as trezentas mil peças de prata que lhe havia emprestado do tesouro, pois o prazo para a restituição já havia expirado, ele havia fugido, tirando assim a ele e aos que lhe sucederiam no cargo os meios de reaver aquela importância. Essa carta irritou a Tibério contra Agripa, e ele deu ordem aos porteiros do quarto que não o deixassem vir à sua presença até que pagasse o que devia.

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* Ou Capri, ilha italiana do mar Tirreno. (N. do R.)

Agripa, no entanto, sem se admirar da cólera do imperador, rogou a Antônia que lhe emprestasse aquela importância, a fim de que ele não perdesse as boas graças de Tibério. E a princesa, considerando o respeito à memória de Berenice e o afeto particular que a ela dedicara, bem como o fato de Agripa ter sido educado junto com Cláudio, seu filho, concedeu-lhe aquele favor. Assim, ele pagou o que devia e firmou-se tão bem no conceito do imperador Tibério que este o encarregou de cuidar de Tibério Nero, seu neto e filho do Druso, e de velar pelas suas ações. Mas o desejo de pagar os favores de que era devedor a Antônia fez com que Agripa, em vez de satisfazer o desejo do imperador, se deixasse prender pelo afeto a Caio, cognominado Calígula, neto daquela princesa, que era amado e honrado por todos por causa da lembrança de Germânico, seu pai. E, tomando emprestado um milhão de peças de prata de um dos libertos de Augusto, chamado Talo, de Samaria, restituiu à Antônia o que ela lhe havia emprestado.
A amizade entre Agripa e Caio tornou-se bem sólida, e certo dia, quando estavam na carruagem de Caio, sucedeu que recordaram alguns comentários que haviam feito acerca de Tibério. Agripa expressou o desejo de que o imperador logo saísse de cena e deixasse o governo nas mãos de Caio, a quem considerava muito mais digno de reinar. Êutico, seu liberto, que guiava o carro, ouviu-o e no momento nada disse. Algum tempo depois, no entanto, Agripa acusou-o de roubo, o que era verdade, e ele fugiu. Quando foi preso, levaram-no à presença de Pisão, prefeito de Roma. Em vez de responder à acusação que lhe faziam, Êutico declarou que tinha um segredo a declarar ao imperador, relativo à sua segurança e preservação. Imediatamente, enviaram-no acorrentado a Capréia. Tibério mandou colocá-lo na prisão e lá o deixou, sem se incomodar mais com o fato.
Embora isso pareça estranho, não há motivo para admiração, porque jamais príncipe algum se apressou menos do que ele, em qualquer assunto. Não dava audiência aos embaixadores e nem preenchia os cargos de governadores e de intendente das províncias senão após a morte desses titulares. Quando os amigos perguntavam a razão disso, ele respondia que, quanto aos embaixadores, se os despachasse prontamente, logo lhe enviariam outros, e assim ele viveria enfadado com ininterruptas embaixadas. No que dizia respeito aos governadores e intendentes das províncias, evitava mudá-los para aliviar o povo, porque os homens são naturalmente gananciosos, principalmente quando é à custa de estrangeiros que eles se enriquecem, e se atiram com mais avidez às cobranças ao perceber que lhes resta pouco tempo no cargo. Porém, ao invés, se depois de haverem acumulado muitos bens não se sentirem ameaçados por um iminente sucessor, procedem com mais moderação. As riquezas todas das províncias não seriam suficientes para contentar a cobiça desses oficiais, caso eles fossem mudados freqüentemente.
Como prova do que dizia, serviu-se desta comparação: "Um homem fora ferido com muitos golpes, e uma grande quantidade de moscas lançou-se às suas chagas. Um viajante, vendo-o naquele estado, teve compaixão dele. julgando que não lhe restaria mais forças para enxotá-las, resolveu prestar-lhe aquele auxílio. Mas o ferido pediu-lhe que o deixasse como estava. O outro perguntou a razão disso, e ele respondeu: Como essas moscas que vedes já estão fartas do meu sangue, já não me causam tanto mal. Mas, se vós as enxotardes, virão outras que, estando ainda com fome e me encontrando tão fraco, acabarão por me fazer morrer". E a melhor prova do que acabo de dizer acerca do caráter de Tibério é que, durante os vinte e dois anos de seu reinado, ele enviou apenas dois governadores à Judéia — Grato e Pilatos — e procedeu do mesmo modo com as outras províncias sujeitas ao Império Romano. Esse príncipe dizia também que não julgava prontamente os prisioneiros "para castigá-los por seus crimes com um longo sofrimento".
Foi por isso que Tibério conservou Êutico por tanto tempo na prisão sem ouvi-lo. Mas, quando ele veio de Capréia a Tusculano, que dista de Roma apenas uns vinte estádios, Agripa rogou a Antônia que ela providenciasse uma audiência para Êutico, a fim de que ele descobrisse de que crime o liberto o estava acusando. Tibério tinha muita consideração por ela, tanto porque era sua cunhada quanto porque era muito casta, pois, embora fosse ainda muito jovem ao ficar viúva, e Augusto insistisse em que ela se casasse de novo, jamais contraiu segundas núpcias, mas vivia em tão grande virtude que a sua reputação se conservou para sempre imaculada.
Devemos acrescentar que ele lhe era particularmente devotado também por causa de um grande favor que ela lhe prestara. Sejano, comandante da guarda pretoriana, a quem ele estimava de modo especial e elevara a um altíssimo grau de poder, organizou contra ele uma grande conspiração, com a cumplicidade de senadores, oficiais do exército e até mesmo alguns libertos de Tibério. Estavam a ponto de a executar, mas ela, sozinha, foi causa de que não se realizasse, porque, tendo-a descoberto, escreveu-lhe imediatamente, descrevendo todos os particulares, por meio de Palas, o mais fiel de seus libertos, que de Capréia lhe levou a carta. Após esse aviso, ele ordenou a morte de Sejano e seus cúmplices.
Esse grande serviço aumentou ainda a estima que ele dedicava a essa princesa, e por isso passou a depositar nela inteira confiança. E assim, como nada havia de que ela não lhe pudesse falar, Antônia rogou-lhe que se dignasse escutar o que Êutico tinha a dizer. Ele respondeu que, se ele queria acusar falsamente o seu senhor, já fora bem castigado pelos sofrimentos na prisão e que Agripa devia tomar cuidado em não se comprometer impensadamente em semelhante negócio, para que o mal que ele queria fazer ao seu liberto não se tornasse demasiado pesado e caísse sobre ele mesmo.
Essa resposta, em vez de acalmar Agripa em seu desígnio, levou-o a insistir ainda mais com Antônia, a fim de obter aquele esclarecimento do imperador. De sorte que, não podendo deixar de fazê-lo, ela aproveitou a ocasião em que Tibério, um dia, era levado em sua liteira para tomar um pouco de ar, estando Caio e Agripa caminhando adiante dele. Ela seguiu-o a pé e renovou o pedido para que mandasse interrogar Êutico. Ele respondeu: "Tomo os deuses como testemunha de que é contra os meus sentimentos e somente para não vos contrariar que farei o que desejais de mim". Então ordenou a Macrom, que sucedera a Sejano no cargo de comandante da guarda pretoriana, que mandasse vir Êutico.
Sem demora, trouxeram-no, e Tibério perguntou-lhe o que tinha a dizer contra aquele ao qual era devedor de sua liberdade. Ele disse: "Um dia, meu senhor, quando Caio, que vejo aqui presente, e Agripa estavam juntos num carro e eu junto deles, para levá-los, Agripa disse a Caio, além de outras coisas: Tomara que logo chegue o dia em que aquele velho vá para o outro mundo e vos deixe senhor deste reino! Tibério, seu neto, não vos será obstáculo, pois muito facilmente vos podereis desfazer dele. Como esta terra seria feliz! E como eu teria parte nessa felicidade!"
Tibério deu crédito às palavras de Êutico, sendo que também guardava ressentimentos pelo fato de Agripa haver recusado cuidar de Tibério Nero, seu neto, como ele lhe ordenara, para se dedicar inteiramente a Caio. Assim, ordenou a Macrom: "Acorrentai aquele homem!" Macrom, que não podia imaginar que o imperador falava de Agripa, esperou estar completamente inteirado de sua vontade para executar a ordem. Tibério, após dar algumas voltas no hipódromo, viu ainda Agripa e disse a Macrom: "Não vos tinha eu ordenado que acorrentásseis aquele homem?" Retrucou-lhe Macrom: "Que homem, senhor?" E Tibério respondeu: "Agripa".
Agripa então, apelando para a memória de seu filho, com o qual havia sido educado, e para os serviços que prestara a Tibério, seu neto, suplicou-lhe clemência. Os seus rogos, porém, foram inúteis, e os guardas do imperador levaram-no para a prisão sem lhe tirar as vestes de púrpura. Como o calor era muito forte e o vinho que bebera no jantar esquentara-o ainda mais, ele sentia tanta sede que procurou com os olhos alguma coisa que a mitigasse. Viu então que um dos escravos de Caio, chamado Taumasto, levava um jarro cheio de água. Pediu-a, e o escravo o atendeu de boa vontade. Depois de beber, ele disse: "Não vos arrependereis de me terdes prestado este favor, pois logo que ficar livre, obterei de Caio a vossa liberdade, como recompensa, pois, vendo-me prisioneiro, atendestes ao meu pedido como se eu estivesse livre". Essa promessa foi cumprida, pois, quando mais tarde subiu ao trono, Agripa solicitou a Caio que lhe desse Taumasto e não somente o libertou como lhe deu a administração de todos os seus bens. E, ao morrer, recomendou a Agripa, seu filho, e a Berenice, sua filha, que o conservassem naquele cargo. E assim, ele desempenhou a sua incumbência com honra durante toda a sua vida.
Um dia, quando Agripa estava com outros prisioneiros diante do palácio, a debilidade causada pela tristeza fez com que ele se apoiasse a uma árvore, sobre a qual uma coruja veio pousar. Um alemão, que estava entre os prisioneiros, tendo-o notado, perguntou ao soldado que o vigiava e que estava acorrentado com ele quem era aquele homem. Ao saber que era Agripa, o mais notável de todos os judeus pela glória de sua origem, rogou ao soldado que lhe permitisse aproximar-se dele, a fim de que pudesse ouvir de sua boca alguma coisa sobre os costumes de seu país. O soldado consentiu.
Então, por meio de um intérprete, o alemão disse a Agripa: "Bem vejo que uma tão grande e repentina mudança em vossa sorte vos aflige, e dificilmente acreditareis que a divina providência vos dará a liberdade muito em breve. Mas tomo os deuses como testemunhas, os deuses que adoro e são reverenciados neste país, os quais me puseram nestas cadeias, de que o que vos tenho a dizer não é uma vã consolação, sabendo, como sei, que predições favoráveis, quando não são seguidas de seus efeitos, só nos servem para aumentar a tristeza. Quero, pois, dizer-vos, embora com perigo, o que pressagia essa ave que acaba de voar sobre a vossa cabeça. Estareis bem depressa em liberdade e elevado a tão grande poder que sereis invejado por aqueles que agora têm compaixão de vossa infelicidade. Sereis feliz durante o resto de vossa vida e deixareis filhos que sucederão à vossa felicidade. Mas quando virdes aparecer de novo essa mesma ave, sabei que somente vos restarão cinco dias de vida. Eis como os deuses vos pressagiam, e, como tenho conhecimento disso, julguei oportuno dar-vos essa alegria, para amenizar os vossos males presentes com a esperança de tantos bens futuros. E, quando vos encontrardes em tão grande prosperidade, peço-vos que não vos esqueçais da miséria em que me encontro e que me deis a liberdade".
O vaticínio do alemão pareceu tão ridículo a Agripa que provocou nele uma gargalhada, tão forte que causou a ele mesmo espanto e admiração. No entanto a sua infelicidade causava muito pesar a Antônia, e, como julgava inútil falar em favor dele a Tibério, tudo o que ela podia fazer era rogar a Macrom que lhe desse por guardas soldados de caráter sociável, que o fizesse tomar as refeições com os oficiais que o custodiavam, que lhe permitisse tomar banho todos os dias e que desse livre entrada aos seus amigos e libertos, a fim de que fosse mitigada a amargura de sua prisão. Desse modo, Silas, seu amigo, Márcias e Estico, seus libertos, levavam-lhe alimento e as iguarias de que mais ele gostava. Tinham tanto cuidado dele que, sob o pretexto de querer vender-lhe cobertas, davam-nas a ele, que delas se servia durante a noite, sem que os guardas o impedissem, pois tinham ordem de Macrom para não interferir.
Assim, seis meses se passaram, e Tibério, depois de regressar a Capréia, caiu num langor que a princípio não parecia perigoso. Porém o mal cresceu, e ele, perdendo a esperança de viver, ordenou a Evódio, o liberto a quem mais estimava, que lhe trouxesse Tibério, cognominado Gemelo, seu neto, filho de Druso, seu filho, e Caio, seu sobrinho-neto, filho de Germânico, seu sobrinho, pois queria falar-lhes antes de morrer. Esse último era já grande, muito bem instruído nas letras e bastante estimado pelo povo, por respeito à memória de Germânico, seu pai, valoroso e excelente príncipe cuja doçura, modéstia e cortesia conquistara não somente o afeto do senado, mas o de todos os povos. A sua morte foi chorada com lágrimas tão verdadeiras que parecia, em luto tão geral e público, que cada qual lastimava uma perda particular. Isso porque durante toda a sua vida ele se esforçara em servir a todos o quanto possível e jamais fizera mal a quem quer que fosse. Esse amor que se tivera pelo pai era também vantajoso para o filho, pois os soldados estavam dispostos até a morrer por ele, se isso fosse necessário para elevá-lo ao trono.
Depois que deu a Evódio a ordem para que lhe trouxesse no dia seguinte bem cedo o seu neto e o seu sobrinho-neto, Tibério rogou aos deuses que lhe manifestassem, por algum sinal, qual dos dois destinavam para seu sucessor, pois, ainda que desejasse que o trono ficasse nas mãos de Tibério, não ousava deliberar em assunto de tamanha importância sem conhecer a vontade soberana deles. O sinal que ele escolheu foi este: aquele que chegasse primeiro no dia seguinte de manhã para saudá-lo seria o imperador. Convicto de que os deuses se manifestariam em favor de seu neto, disse ao seu preceptor que o trouxesse bem cedo.
Os fatos, no entanto, não corresponderam às suas esperanças, pois, tendo ordenado a Evódio desde madrugada que fizesse entrar o príncipe que chegasse primeiro, não encontrou o jovem Tibério — este não fora avisado da ordem do imperador porque havia ido participar de um banquete. Caio, porém, estava à porta do quarto, e Evódio disse-lhe que o imperador o estava esperando e o mandou entrar. Quando Tibério o avistou, compreendeu que os deuses não lhe permitiam dispor do império como ele desejava e que os seus desígnios eram opostos aos dele.
Por maior que fosse o seu pesar, todavia, ele estava ainda mais comovido por causa da infelicidade de seu neto, que não somente perdera a oportunidade de sucedê-lo, mas corria agora risco de vida, pois era fácil imaginar que o parentesco não seria suficiente para conservá-la se Caio se tornasse o senhor. O soberano poder não admite divisão, e assim esse novo imperador, não se podendo julgar seguro enquanto o jovem Tibério vivesse, com certeza procuraria um meio de se desfazer dele.
Tibério dava muito crédito à astrologia. Durante toda a sua vida, prestara tanta fé aos horóscopos que estes serviam de regra à maior parte de suas ações. De modo que, vendo um dia Galba aproximar-se dele, disse a alguns de seus mais íntimos amigos: "Aquele homem que vedes será imperador". E, como ele em várias ocasiões testemunhara predições seguidas de sua realização, nenhum outro dos césares nelas tanto acreditou como ele. Assim, o fato de Caio haver chegado primeiro afligiu-o tanto que ele já considerava morto o jovem Tibério e acusava a si mesmo de ter desejado conhecer a vontade dos deuses por aquela revelação, que o cumulava de dor, anunciando-lhe a perda da pessoa a quem mais ele estimava no mundo. Ele poderia ter morrido tranqüilo se a sua curiosidade não o tivesse levado a querer penetrar os segredos do futuro.
No meio da grande perturbação em que se encontrava, por ver que contra a sua intenção o império cairia nas mãos daquele que não havia destinado para seu sucessor, ele não deixou, embora contra a vontade, de falar a Caio deste modo: "Meu filho, ainda que Tibério me seja mais próximo que vós, passo a vossas mãos, por minha própria escolha e para me conformar à vontade dos deuses, o império de Roma. Rogo-vos, porém, que jamais vos esqueçais da obrigação que me deveis, por vos elevar a esse grau supremo de poder, e que me testemunheis isso pelo afeto que dedicareis a Tibério. É a maior prova que poderíeis me dar de vosso reconhecimento por um tão grande benefício, do qual, depois dos deuses, me sois devedor. Além disso, a natureza vos obriga a amar uma pessoa que vos é tão próxima. Deveis considerar a sua vida um dos sustentáculos de vosso império, ao passo que a sua morte seria para vós um princípio de infelicidade, pois é perigoso aos príncipes não ter parentes. E aqueles que não temem ofender os deuses, violando as leis da natureza, não podem evitar a sua justa vingança".
Tais foram as palavras de Tibério, e Caio demonstrou estar de acordo com tudo, embora sem a intenção de cumprir as suas promessas, pois, logo que foi elevado ao poder, mandou matar o jovem Tibério, como o avô tinha previsto. E ele mesmo, alguns anos depois, foi assassinado.
Voltando, porém, a Tibério, ele viveu somente mais alguns dias após nomear Caio para seu sucessor. Havia reinado vinte e dois anos, cinco meses e três dias. A notícia da morte desse príncipe causou muita alegria em Roma, mas ninguém ousava acreditar, por temer que não fosse verdade. Manifestar regozijo abertamente seria pôr-se em risco de perder a vida num reinado como o de Tibério, por causa dos delatores. Tibério, mais que qualquer outro antes dele, destruíra diversas famílias importantes de Roma. Ele era tão colérico, inexorável e cruel que odiava mesmo sem motivo e considerava a morte, ainda que injusta, um leve castigo.
Márcias, entretanto, foi apressadamente dar a notícia ao seu senhor. Encontrou-o saindo do banho e, aproximando-se dele, disse-lhe em hebraico: "O leão está morto". Agripa compreendeu logo o que ele queria dizer e respondeu, com transportes de alegria: "Como poderei reconhecer os serviços que me prestastes e particularmente este, de me trazerdes tão auspiciosa notícia, se é que é verdadeira?" O oficial que guardava Agripa, tendo visto com que afã Márcias havia chegado e o contentamento que Agripa manifestara depois do que ele lhe dissera, não teve dificuldade em julgar que algo de importante acontecera e rogou-lhes que dissessem de que se tratava. De início, eles hesitaram, mas ele insistiu tanto que, por fim, Agripa, que já havia contraído amizade com ele, contou-lhe o que acontecera.
O oficial regozijou-se então pela sua felicidade e, para manifestar a sua alegria, ofereceu-lhe um banquete. Contudo, enquanto se divertiam e bebiam, alegres, chegou a notícia de que Tibério não havia morrido e que em poucos dias ele retornaria a Roma. A surpreendente notícia deixou abalado o oficial, porque ele então imaginou o risco que corria a sua vida por tratar de modo tão benevolo um prisioneiro que estava sob a sua guarda, e isso por acreditar que o imperador havia morrido. Então ele empurrou Agripa do assento onde este se colocara à mesa do festim e disse-lhe: "Imaginais então que, após terdes me enganado com essa mentira sobre a morte do imperador, ficareis impune? Ou que essa falsa notícia não vos irá custar a cabeça?" Ditas essas palavras, ordenou que o acorrentassem de novo e o vigiassem ainda com mais cuidado que antes.
A noite passou-se em amargura para Agripa. Porém, no dia seguinte não havia mais dúvida quanto à morte do imperador. Todos a comentavam abertamente, e alguns chegaram a oferecer sacrifícios para testemunhar a própria alegria. Chegaram nesse mesmo tempo duas cartas de Caio: uma endereçada ao senado, anunciando a morte de Tibério e dizendo que ele fora o escolhido para substituí-lo, e a outra, a Pisão, governador da cidade, que dizia a mesma coisa e ordenava que se tirasse Agripa da prisão e lhe fosse permitido voltar à sua casa. Assim, Agripa viu-se livre de todos os seus temores. E, embora estivesse ainda sob custódia, vivia no resto como desejava.
Pouco depois, Caio veio a Roma, para onde fez trazer o corpo de Tibério, ordenando que lhe fizessem, segundo o costume dos romanos, soberbos funerais. Era seu desejo colocar Agripa em liberdade naquele mesmo dia, porém Antônia o aconselhou a protelar a decisão. Embora sentisse afeto por ele, julgava que aquela precipitação iria contra o decoro do império, porque não se devia apressar tanto a liberdade de alguém que Tibério mantinha preso sem manifestar desrespeito à sua memória. No entanto, alguns dias depois, Caio mandou chamá-lo. Fez com que cortasse os cabelos e mudasse a roupa e depois colocou-lhe uma coroa na cabeça, constituindo-o rei da tetrarquia que pertencera a Filipe. Deu-lhe ainda a tetraquia de Lisânias. Como sinal de seu afeto, presenteou-o com uma cadeia de ouro que tinha o mesmo peso daquela, de ferro, que ele usara na prisão. Em seguida, nomeou Marulo governador da Judéia.
787.  No segundo ano do reinado de Caio, Agripa rogou-lhe que lhe permitisse viajar ao seu reino, a fim de organizar todos os assuntos referentes ao governo, com a promessa de retornar logo depois. Então, com a permissão do imperador, ele entrou no seu próprio país. Vimos que foi contra toda espécie de probabilidade que esse príncipe veio a ter a coroa sobre a cabeça. Tal fato é um ilustre exemplo do poder da fortuna, quando se comparam as misérias passadas com a felicidade presente. Alguns, por isso, admiravam a firmeza e a constância que ele havia demonstrado para ver realizadas as suas esperanças. Outros tinham dificuldade em acreditar no que viam com os próprios olhos.



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