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7 de janeiro de 2022

História De Israel – Teologia 31.299 (2º Parte Livro 1) CAPÍTULO 17 POR DIVERSOS MOVIMENTOS DE AMBIÇÃO, DE INVEJA E DE DESCONFIANÇA, O REI HERODES, O GRANDE, SURPREENDIDO PELAS CABALAS E CALÚNIAS DE ANTÍPATRO, DE FERORAS E DE SALOMÉ, MANDA MATAR HIRCANO, O SUMO SACERDOTE, AO QUAL PERTENCIA O REINO DA JUDÉIA, ARISTÓBULO, IRMÃO DE MARIANA, SUA MULHER MARIANA, E ALEXANDRE E ARISTÓBULO, SEUS FILHOS.*

 

História De Israel – Teologia 31.299

(2º Parte Livro 1)

CAPÍTULO 17

POR DIVERSOS MOVIMENTOS DE AMBIÇÃO, DE INVEJA E DE

DESCONFIANÇA, O REI HERODES, O GRANDE, SURPREENDIDO PELAS

CABALAS E CALÚNIAS DE ANTÍPATRO, DE FERORAS E DE SALOMÉ, MANDA

MATAR HIRCANO, O SUMO SACERDOTE, AO QUAL PERTENCIA O REINO DA

JUDÉIA, ARISTÓBULO, IRMÃO DE MARIANA, SUA MULHER MARIANA,

E ALEXANDRE E ARISTÓBULO, SEUS FILHOS.*

 

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* Este registro também se encontra no Livro Décimo Quinto, capítulos 3, 4, 9 e 11, e no Livro Décimo Sexto, capítulos 1, 2, 6, 7, 8, 11, 12, 16 e 1 7, Antigüidades Judaicas, Parte I.

 

91. Desgostos familiares perturbaram a tranqüilidade desse reino, que fazia passar Herodes por um dos príncipes mais felizes de seu século, e a pessoa a quem mais ele amava foi disso a causa. Depois de ter subido ao trono, ele repudiou sua primeira mulher de nome Dóris, que era de Jerusalém, para desposar Mariana, filha de Alexandre. Este casamento dividiu toda a família, e o mal aumentou ainda mais depois de sua volta de Roma. Os filhos que tinha dessa princesa fizeram-no afastar a corte a Antípatro, filho de Doris, não lhe permitindo nem mesmo vir a Jerusalém, a não ser nos dias de festa, e ele mandara matar Hircano, avô materno de Mariana, porque tinha suspeitado de que urdira uma conspiração contra ele, depois de ter deixado o cativeiro. Barzafarnés, depois de se ter apoderado da Síria, levou-o prisioneiro ao rei dos partos, e os judeus que habitam além do Eufrates, cheios de compaixão por sua desdita, pagaram o resgate e ele não teria morrido, se tivesse seguido o conselho que lhe deram de não mais voltar para perto de Herodes. Mas o casamento de sua neta com esse soberano e, ainda mais, o desejo de rever seu país foram ciladas para ele, nas quais não pôde deixar de cair e embora não manifestasse desejo de reinar, pois o reino pertencia legitimamente a ele, Herodes considerou-o um crime, que o tornava digno da pena de morte.

92. Teve Herodes, de Mariana, cinco filhos, isto é, duas filhas e três filhos; o mais jovem morreu em Roma, para onde fora mandado, a fim de se instruir nas ciências; ele fazia educar os dois outros à maneira real, quer pela excelência de sua origem do lado materno, quer porque os tivera depois de cingir a coroa. Mas nada agia em seu favor com tanto poder, sobre seu espírito, como sua incrível paixão por sua esposa; esta aumentava todos os dias, de tal modo, que parecia insensível às ofensas que recebia. A princesa não o odiava menos do que o amava e tinha tanta confiança no afeto que ele lhe dedicava, que não temia acrescentar aos motivos que lhe dava sem cessar, de a trocar em aversão, censuras pela morte de Hircano, seu avô, e de Aristóbulo, seu irmão, que sua inocência, beleza e juventude não tinham podido preservar de sua crueldade. Ele o tinha constituído sumo sacerdote na idade de dezessete anos e as lágrimas de alegria derramadas pelo povo, quando o viu entrar no Templo, revestido das vestes sagradas, causaram-lhe tanta inveja, que ele o mandou, à noite, a Jerico, onde os gaiatas o afogaram, por sua ordem, num ataque.

A princesa não se contentava de fazer essas censuras a Herodes; ela tratava também sua mãe e sua irmã de maneira ofensiva; ele a suportava sem nada dizer, porque a violência de seu amor fechava-lhe a boca. Nada havia, porém, ao contrário, que essas mulheres, desvairadas pelo furor e pelo desejo de vingança, não fizessem para incitá-lo contra ela. Não lhe pouparam nem mesmo a honra; para fazê-la passar em sua mente por impudica, acusaram-na de ter mandado ao Egito seu retrato a Antônio, que todos sabiam ser o homem mais apaixonado do mundo pelas mulheres e que poderia assim fazê-lo morrer, para se apoderar da sua esposa. Estas palavras foram como um raio que feriu Herodes e acenderam no seu coração a chama do ciúme. Ele considerava sem cessar que não havia crueldade à qual a avareza insaciável de Cleópatra não fosse capaz de levar Antônio; ela, que para ter os bens do rei Lisânias e de Malce, rei dos árabes, os fizera morrer; assim, ele não somente corria risco de perder a mulher, mas também a vida. Nessa agitação e perturbação em que viviam quando partiu para ir falar com Antônio, ordenou a José, marido de Salomé, sua irmã, que matasse Mariana, se Antônio o fizesse morrer. José foi tão imprudente que revelou esse segredo a Mariana, pelo desejo de a certificar do extremo amor do rei, seu marido, para com ela, fazendo-lhe ver que ele não podia tolerar que a mesma morte os separasse.

Dessa forma, quando Herodes, ao seu regresso, fazia-lhe protestos de seu imenso amor e de sua paixão, afirmando-lhe que somente ela possuía seu coração, ela disse-lhe: "As ordens que destes a José, de me matar, são disso uma grande prova." Estas palavras tão estranhas fizeram-no crer que ela se tinha entregado a José, para poder ter arrancado dele tal segredo; atirou-se do leito, aceso de cólera. Agitado ainda, e fora de si, ele passeava pelo palácio. Salomé, para não perder uma ocasião favorável de acusar Mariana, confirmou-lhe as suspeitas; assim, seu ciúme, como uma torrente impetuosa, que nada é capaz de deter, fê-lo ordenar que naquele mesmo instante se matassem Mariana e José. Mas, apenas tinha dado essa ordem, arrependeu-se. Seu amor pela princesa, mais violento que nunca, triunfou sobre a cólera. A paixão dominava de tal modo sua alma e sua razão, que mesmo quando a tivesse feito morrer, não poderia crer que ela estava morta; falava-lhe, no excesso do desespero, como se ainda estivesse viva, até que o tempo fê-lo conhecer que era verdade ter ele mesmo se privado dela, por sua crueldade; então, manifestou não menor dor por tê-la perdido do que havia manifestado amor, quando ainda a possuía.

93. Os filhos dessa infeliz princesa herdaram o ódio que tão estranha crueldade tinha impresso no coração de sua mãe e o horror por um ato tão bárbaro; fazia-os considerar seu pai como o maior inimigo. Eles sempre se mantinham nesse sentimento, quando faziam seus exercícios em Roma, mas a paixão crescia sempre com os anos e aumentou ainda mais depois de sua volta à Judéia. Quando chegaram à idade de se casar, Herodes fez Alexandre, que era o mais velho, desposar Glafira, filha de Arquelau, rei da Capadócia, e Antígono, o mais novo, a filha de Salomé, sua tia, inimiga mortal de sua mãe. A liberdade que o casamento lhes dava, unindo-se ao ódio por seu pai, tornaram-nos ainda mais ousados contra ele, e seus perseguidores não deixaram de aproveitar esta ocasião para dizer ao rei que esses dois príncipes estavam conspirando contra sua vida, para vingar, com suas próprias mãos, a morte de sua mãe e Alexandre tinha resolvido fugir logo depois, para junto de Arquelau, seu sogro, para de lá passar a Roma e acusá-lo perante Augusto.

94.  Herodes, sensivelmente comovido com esta advertência, chamou para perto de si a Antípatro, que ele tivera de Doris, para servir de defesa contra seus irmãos, preferindo-o em todas as coisas. Como a grandeza dos reis, de que eles eram descendentes do lado materno, os fazia desprezar a baixeza do nascimento de Antípatro, oriundo de Doris, essa mudança lhes pareceu insuportável e eles conceberam tal indignação, que não a podendo dissimular, manifestavam-na a todos. Tão imprudente procedimento os fazia diminuir diariamente a consideração para com eles; Antípatro, ao contrário, não se descuidava de nada que pudesse aumentar-lhe o prestígio. Ele tinha habilidade e tudo fazia para ser agradável ao rei; não havia artifícios de que não se servisse para acusar seus irmãos, indispondo o rei contra eles, quer ele mesmo, quer por meio de seus amigos. Esse ardil deu-lhe resultado, de tal modo que os colocou em situação de não poder mais esperar sucedê-lo no trono. Herodes declarou-o sucessor, em seu testamento, e o mandou a Augusto, com uma equipagem e todos os distintivos de um rei, exceto a coroa.

95.  Tão grande sorte ensoberbeceu-o de tal modo, que ele ousou pedir, e obteve de Herodes, colocar sua mãe no lugar que Mariana havia deixado; e para conseguir o seu intento de destruir seus irmãos, ele usou tanto de esperteza, como de adulação, para com eles, servindo-se também de calúnias, contra os mesmos, o que levou até mesmo Herodes a querer mandar matá-los. Assim, fê-los ir a Roma, para acusá-los, perante Augusto, de ter querido envenená-lo. Apenas esse infeliz príncipe pôde obter a permissão de falar para se defender; mas, por fim, tendo encontrado na pessoa do imperador um juiz muito mais hábil do que Antípatro e mais sábio do que Herodes, ele suprimiu, por respeito, e com uma louvável modéstia, as injustiças de seu pai e destruiu fortemente todas as calúnias de que se haviam servido para torná-lo odioso. Justificou também Antígono, seu irmão, que haviam envolvido na suspeita do mesmo crime e deu a conhecer que tudo fora motivado pela maldade de Antípatro. Terminou seu discurso, dizendo que seu pai teria com justiça feito que eles morressem, se fossem culpados; todos os presentes estavam com lágrimas nos olhos, porque, além de ser assaz eloqüente e da confiança que ele tinha em sua inocência, acrescentava ainda tanta graça e força às suas palavras, que ninguém poderia deixar de se persuadir da justiça de Augusto naquela causa. O imperador ficou comovido, tanto que, considerando com desprezo todas as acusações, reconciliou naquele mesmo momento os dois príncipes com seu pai, com a condição de que cumprissem todos os deveres para com ele, e ser-lhe-ia livre deixar o reino ao filho que escolhesse para sucessor.

96.  Herodes partiu logo depois para voltar à Judéia e embora parecesse que perdoara completamente a Alexandre e a Antígono, Antípatro, que ele também levara consigo, mantinha-o, porém, sempre suspeitoso; sem, todavia, manifestar sua má vontade contra eles, para não ofender tão poderoso media-neiro na sua reconciliação com o imperador. Herodes navegou favoravelmente e chegou, pela Cilícia, a Elusa, onde o rei Arquelau, que não deixara de escrever a Roma e a todos os amigos em favor de Alexandre, recebeu-o com grandes demonstrações de afeto e de alegria, porque seu genro tinha readquirido as boas graças do rei, seu pai, e o acompanhou até Zefíria, dando-lhe ainda trinta talentos, de presente.

97.  Quando Herodes chegou a Jerusalém, reuniu o povo, informou-o, em presença de Antípatro, de Alexandre e de Antígono, de tudo o que se havia passado durante a viagem; deu graças a Deus por ter sido bem-sucedido em tudo, e a Augusto, por ter restituído a paz à sua família e reunido os três irmãos, felicidade que ele apreciava mais que o mesmo reino. "Mas", acrescentou, "firmarei ainda mais essa união, pois esse grande príncipe não somente me deu poder absoluto em meu reino, mas também deixou à minha disposição escolher o meu sucessor, dentre os meus filhos. Assim, declaro que minha intenção é dividir o reino entre aqueles que, praza a Deus, a quem rogo de todo o meu coração, for agradável, e com a vossa aprovação. Creio nada poder fazer de mais justo, pois se Antípatro tem a vantagem de ser mais velho que seus irmãos, eles têm a nobreza do sangue e meu reino é bastante grande para ser dividido entre os três. Honrai, pois, àqueles que o imperador teve a bondade de reunir, e seu pai, de nomear por sucessor. Prestai a cada um, segundo a idade, o respeito e as homenagens a que eles têm direito; não mudeis a ordem que a natureza estabeleceu e lembrai-vos de que não obsequiareis àquele ao qual prestardes mais honra embora mais jovem, sem ofenderdes aos outros. Como sei que o vício ou a virtude daqueles que vivem com os príncipes, mantêm ou perturbam essa união, tomarei cuidado de lhes dar por amigos e de colocar junto deles, os parentes que eu sei são os mais capazes de mantê-los em boas relações e em cuja atuação posso confiar. Desejo, entretanto, que, no momento, não somente essas pessoas que vou escolher, mas todos os oficiais de minhas tropas, nada esperem senão de mim, somente, pois não estou dando aos meus filhos o meu reino, mas apenas a certeza de possuí-lo um dia e uma alegria que não lhes trará pena alguma, porque ainda que não o quisesse, continuo a sustentar o peso dos negócios do Estado. Considerai a minha idade, minha maneira de viver e minha piedade; vereis que eu não sou tão velho, que não possa ainda viver por muito tempo: que eu não me entregarei à voluptuosidade, a qual abrevia a idade dos jovens e que a maneira como servi a Deus dá-me motivo de esperar de sua bondade, que ele prolongará meus dias. Mas se, para agradar a meus filhos, alguém tiver a ousadia de me desprezar, eu o castigarei como merece; não que eu seja invejoso da glória que se presta àqueles que eu pus no mundo, mas porque sei que os jovens se deixam muito facilmente dominar pela vaidade e pelo orgulho. Que cada qual, portanto, imagine que seu bom ou mau proceder será seguido de recompensa ou de castigo. É a maneira de proceder para me agradar a mim e aos meus filhos, pois que lhes é vantajoso que eu reine e que fique satisfeito com eles." "Quando a vós, meus filhos", acrescentou Herodes, dirigindo a palavra aos três filhos, "eu vos exorto a cumprir religiosamente todos os deveres aos quais a natureza vos obriga e que imprime mesmo no coração dos animais mais ferozes. Sede gratos para com o imperador, por todas as homenagens e favores que lhe devemos, por nos ter reunido todos. Procurai agradar-me com o que vos acabo de pedir e com o que tenho o direito de vos ordenar, e vivei todos unidos de maneira verdadeiramente fraterna. Darei ordem para que nada vos falte, de tudo aquilo que a dignidade real exige e, se permanecerdes unidos, eu rogarei a Deus, de todo o meu coração, fazer que aquilo que eu ordeno seja para vossa vantagem e sua glória." Terminando estas palavras, ele abraçou os filhos com grandes demonstrações de afeto e dissolveu-se a assembléia, uns desejando que os fatos correspondessem às palavras; e os que só desejavam a agitação, fingiam não ter entendido o que ele tinha dito.

98. Quanto aos três irmãos, muito longe de esse discurso os reunir, eles se afastaram e se separaram ainda mais do que nunca no próprio coração. Alexandre e Aristóbulo, não podendo tolerar que Antípatro tivesse uma parte do reino, nem Antípatro, o não possuí-lo por inteiro; mas por como ele era muito fingido e muito mau, não mostrava o ódio que lhes tinha. E eles, ao contrário, por aquela afoiteza que dá o esplendor da própria origem, não ocultavam seus sentimentos. Vários, para agradar a Antípatro, insinuavam-se em sua amizade, a fim de obser-var suas ações. Nada diziam que não lhe fosse logo referido e por ele, ao rei, ao que ele ainda acrescentava outras coisas. Assim, Alexandre não podia abrir a boca sem que disso tirassem proveito. Faziam passar por crime suas palavras mais inocentes; por pouco que fossem livres, era um pretexto suficiente para se atirarem contra ele as maiores calúnias, e pessoas subornadas por Antípatro faziam-no continuamente falar, a fim de dar ocasião a falsas delações e, com alguma probabilidade de verdade, levar Herodes a prestar fé a todo o restante. Esse inimigo capital de seus irmãos só tinha amigos secretos, aos quais os presentes que dava, obrigava a não revelar os artifícios de seu proceder e de sua cabala, que se podia dizer, um mistério de iniqüidade. Por outro lado, ele também tinha ganho, pelo dinheiro ou pela bajulação, os que tinham mais familiaridade com Alexandre, a fim de os induzir a traí-lo e a referir-lhe tudo o que se dizia ou que se fazia contra ele. Mas de todos os meios de que ele se servia para incompatibilizar seus irmãos com o rei, seu pai, o mais artificioso e o mais poderoso, era que, em vez de se declarar abertamente inimigo, ele os fazia acusar por seus confidentes e, depois de ter primeiro fingido defendê-los, apoiava diretamente o que ele via poder persuadir a Herodes de que aquelas acusações eram verdadeiras e fazê-lo crer que Alexandre era tão mau que o desejo que ele tinha de sua morte o levava a tramar contra sua vida.

99. Tantos manejos que Antípatro empregava, ao mesmo tempo, irritavam cada vez mais Herodes contra Alexandre e Aristobulo e quanto sua afeição por aqueles diminuía, tanto aumentava, ao invés, por este. Como ele já era poderoso, as principais pessoas da corte seguiam as inclinações do rei, uns voluntariamente, outros para lhe agradar. Seu irmão Ptolomeu, o mais querido de seus amigos, e toda a família real eram desse número. Nisto, o que era mais insuportável a Alexandre era ver que naquela conspiração feita para destruí-lo, tudo se fazia a conselho da mãe de Antípatro, que era para ele e para seus irmãos uma madrasta tanto mais cruel quanto não podia tolerar que eles tivessem vantagem sobre seu filho, por terem tido por mãe tão grande rainha. Mas não era somente o prestígio de Antípatro que levava todos a lhe fazerem corte, pela esperança de obter alguma vantagem, mas era também para obedecer ao rei; pois ele proibia aos que mais ele amava, que prestassem algum obséquio a Alexandre e ao seu irmão; e esse príncipe não era somente temido por seus súditos, mas o era também pelos estrangeiros, porque Augusto não favoreceu a nenhum outro rei que não a ele, e lhe tinha dado poder de reter, mesmo nas cidades que lhe não estavam sujeitas, os que saíam de seu reino, sem sua permissão.

100.  O perigo em que tantos maus serviços e tantas calúnias punham esses jovens príncipes era tanto maior quanto eles não o conheciam, porque Herodes não se queixava deles abertamente. Mas como lhes era fácil ver que o afeto que ele lhes havia outrora demonstrado cada vez esfriava mais, seu penar não podia não aumentar também. Antípatro teve mesmo a coragem de incitar contra eles a Feroras, seu tio e Salomé, sua tia, aos quais falava com a mesma liberdade como se ela tivesse sido sua esposa, e a princesa Glafira contribuía para manter e aumentar essa inimizade. Como ela tinha sua origem do lado paterno de Temeno e do lado materno de Dario, filho de Histape, a desproporção que havia entre seu nascimento e o de todos os que eram descendentes de outras mulheres no reino, fazia olhá-los com desprezo. Salomé ficava muito ofendida e todas as mulheres de Herodes não menos do que ela, pelo que ela dizia que a tinha desposado por causa de sua beleza; pois como vimos, esse príncipe sentia prazer em usar da liberdade que a lei nos dá de ter várias mulheres e não havia uma só delas que não odiasse a Alexandre, pelo ressentimento, pela maneira tão ultrajante, com que a princesa, sua mulher, as tratava.

101.  Aristobulo, genro de Salomé, irritou ainda mais seu espírito e tornou-a inimiga pelas censuras contínuas que fazia à sua mulher, por sua baixa origem e porque seu irmão tinha desposado uma filha do rei, e ele tinha por mulher a filha de um homem qualquer. Seu penar, por ser tratada desse modo, fez-lhe vir as lágrimas aos olhos, e queixou-se à sua mãe. Ela acrescentou que Alexandre e Aristobulo diziam que se um dia galgassem o trono, eles reduziriam as mulheres de Herodes a simples fiandeiras, com suas servas e dariam como cargos, aos filhos que ele delas tivera, ofícios de escrivães, que a maneira como tinham sido educados tornava aptos a desempenhar. Salomé ficou tão irritada com essa palavras, que referiu tudo imediatamente a Herodes e como era contra seu próprio genro que ela lhe falava, ele não teve dificuldade em acreditar.

102.  Diz-se também que uma outra coisa o impressionou sensivelmente e fez-lhe redobrar a cólera contra os filhos; e foi que lhe afirmaram que eles chamavam continuamente pela mãe; chorando sua desgraça, faziam imprecações contra ele e, como ele dava freqüentemente às suas mulheres vestes que haviam pertencido a essa princesa, diziam que as fariam mudar logo em trajes de luto.

103.  Embora Herodes temesse a altivez desses príncipes, ele não quis, entretanto, perder toda esperança de reconduzi-los ao dever. Assim, estando de partida para Roma, falou-lhes em poucas palavras, com uma severidade de rei e fez-lhes um grande discurso, com bondade de pai. Concluiu, exortando-os a amar seus irmãos e prometeu-lhes esquecer todas as faltas passadas, contanto que procedessem melhor para o futuro. Eles responderam-lhe que lhes seria fácil provar, que nada havia de mais falso, do que tudo o que lhe haviam referido deles, apenas para torná-los odiosos; e que não lhe fosse grato tornar menos fácil prestar fé a semelhantes palavras, pois encontrariam sempre pessoas que procurari-am a sua ruína, inculcando calúnias em seu espírito.

104.  Como as entranhas de seu pai não podiam deixar de se comover com estas palavras, esses dois príncipes sentiram-se então livres de suas penas e dos temores presentes e começaram ao mesmo tempo a temer pelo futuro, porque souberam que tinham a Salomé e Feroras como inimigos, ambos muito temíveis e principalmente Feroras, porque Herodes tinha-o associado ao governo; só lhe faltava a coroa para ser considerado rei. Ele tinha de próprio cem talentos de renda; Herodes deixava-o gozar de todas as terras que estavam além do Jordão; ele tinha obtido de Augusto a Tetrarquia; tinha-o feito desposar a irmã de sua mulher e, depois que ela falecera, tinha querido dar-lhe em casamento uma de suas filhas, com trezentos talentos; mas a paixão que Feroras tinha por uma moça de condição baixa, tinha-o feito recusar o partido tão vantajoso e tão honroso, com que Herodes ficou muito ofendido e a deu ao filho de Fazael, seu irmão mais velho. Entretanto, algum tempo depois, considerando aquela recusa como uma loucura que a violência do seu amor tinha-o feito cometer, ele perdoou-o. Havia corrido uma notícia muito tempo antes que, quando ainda vivia a rainha Mariana, Feroras quisera envenenar o rei seu irmão; Herodes estava então muito inclinado a acreditar em todas as calúnias, ainda que ele amasse muito a Feroras, e prestanteu fé àquela. Assim fez torturar a vários que lhe eram suspeitos e depois a alguns mesmo dos amigos de Feroras. Nada eles confessaram a respeito do veneno, mas disseram somente que Feroras tinha resolvido fugir para junto dos partos, com aquela mulher a quem ele amava e que Costobaro, que Salomé tinha desposado depois da morte de seu primeiro marido, conhecia o seu projeto. Salomé foi também acusada por Feroras, seu irmão, de várias coisas de que não se pôde justificar e particularmente de ter querido desposar Sileu, que governava toda a Arábia, sob o rei Oboudas e que Herodes odiava muito, mas ele perdoou a ambos, isto é, a ela e a Feroras.

105. Toda a tempestade caiu sobre Alexandre, pelo motivo que passo a expor: Herodes tinha recebido três eunucos aos quais estimava muitíssimo, um dos quais era seu criado de quarto, o outro, seu mordomo de sala e o terceiro, mordomo do palácio. Alexandre subornou-os com grandes presentes. Herodes veio a sabê-lo e os fez torturar tão rudemente, que a violência dos tormentos os obrigou a tudo confessar. Eles disseram que Alexandre os havia enganado, dizendo-lhes que o rei seu pai era um velho de caráter insuportável, que mandava pintar os cabelos para parecer moço e do qual eles nada tinham a esperar; mas que era a ele que deviam estimar e dele esperar o afeto, pois ele seria seu sucessor embora o rei não o quisesse; vingar-se-ia de seus inimigos e recompensaria os amigos, entre os quais eles tinham o primeiro lugar. Eles acrescentaram que os grandes, os comandantes e os outros principais oficiais, estavam todos de acordo com Alexandre e serviam-no secretamente. Estas afirmativas lançaram tal terror no espírito de Herodes que a princípio ele não ousou manifestar nada, nem deu a entender que tudo sabia. Contentou-se de fazer vigiar dia e noite as pala-vras e as ações de todos e quando suspeitava de alguém, mandava logo matá-lo. Dessa forma, nesse infeliz reino, só se viam crueldades e injustiças. Esse príncipe estava sempre pronto a derramar sangue; e no furor que o agitavam, era suficiente inventarem-se calúnias contra aqueles que ele odiava, para logo serem eliminados; em tudo ele acreditava; não havia intervalo entre a acusação e a condenação; e se o acusador se tornava acusado, eram ambos levados ao suplício, porque esse príncipe julgava que, quando se tratava de sua vida, não era neces-sário observarem-se certas formalidades. Sua crueldade chegou a tal excesso, que não somente não podia olhar com bons olhos os que não eram acusados, mas era impiedoso mesmo para com seus amigos. Exilou a vários do seu reino e usou mesmo de palavras ofensivas contra outros, sobre os quais seu poder não se estendia. Para cúmulo da infelicidade de Alexandre, não houve calúnias que Antípatro e todos esses parentes não inventassem para conseguir arruiná-lo; a facilidade e a imprudência de Herodes faziam-no prestar fé a tantas falsas acusações e ele começou a sentir tal medo que imaginava ver Alexandre vir a ele com a espada na mão, para matá-lo. Mandou imediatamente pô-lo numa prisão e fez tnrturar seus amiqos. Alquns morriam nos tormentos sem nada confessar, porque não queriam ferir sua consciência; outros, não podendo suportar tantas dores, depunham contra a verdade, que os dois irmãos tinham conspirado contra o rei, seu pai, e resolvido aproveitar para matá-lo durante uma caçada e depois fugir para Roma. Essa acusação era tão pouco verossímil que facilmente se podia muito bem compreender que era feita apenas para se verem livres da tortura. Herodes, entretanto, facilmente deixava-se convencer e estava bem satisfeito de que parecia por meio delas, que ele não cometera nenhuma injustiça, mandando prender seu filho. Alexandre, vendo-o tão irritado contra si, julgou impossível acalmá-lo, resolveu aceitar tudo o de que o acusavam e servir-se desse meio para destruir os que o queriam desgraçá-lo. Assim, escreveu quatro documentos, pelos quais reconhecia ter querido tentar contra a vida do rei, seu pai, mas citava também várias pessoas que ele dizia serem cúmplices de seu projeto e particularmente Feroras e Salomé, a qual ele declarava ser tão impudica que tivera a desfaçatez de vir à noite, contra a vontade dele, deitar-se em sua cama.

106. Esses documentos que acusavam de tantos crimes a vários dos principais da corte, estavam já nas mãos de Herodes, quando Arquelau, rei da Capadócia, chegou. Seu temor pelo príncipe, seu genro e pela filha tinha-o feito vir com grande pressa, a fim de ajudá-los em tão premente necessidade e sua sábia orientação venceu a cólera de Herodes. Ele começou por dizer: "Onde está então meu abominável genro? Onde está esse detestável assassino, para que eu o estrangule com minhas próprias mãos? Quero dar minha filha em casamento a outro príncipe virtuoso, visto que ele é tão mau! Embora ela não tenha parte em crime tão horrível, basta que seja sua mulher, para que a vergonha recaia sobre ela também. Quem poderia assaz admirar a vossa paciência por ver que, em tal conjuntura, em que não se trata de nada menos do que da vossa vida, permitis que Alexandre ainda viva? Eu pensava, quando parti, encontrá-lo já morto e não ter que vos falar senão de minha filha, a qual unicamente a consideração por vós me levou a dá-la por esposa. Mas pelo que vejo, temos agora que deliberar a este respeito, nós dois. Se vossa ternura por um filho não merece mais ser considerada como tal, depois que ele se tornou quase parricida, vos torna demasiado tardio em puni-lo; tolerai, eu vos rogo, que eu tome o vosso lugar e vós, tomai o meu, a fim de que eu vos vingue de vosso filho e façais de minha filha o que quiserdes."

Por maior que fosse a cólera de Herodes, estas palavras de Arquelau o desarmaram; e assirn ele entregou-lhe os quatro documentos escritos por Alexandre. Eles os examinaram juntos, artigo por artigo, e Arquelau deles se serviu para fazer justamente o que tinha resolvido, lançando pouco a pouco a causa de todo o mal sobre aqueles de que ele falava em seus escritos e particularmente sobre Feroras.

Quando ele percebeu que Herodes já começava a ser do seu parecer, disse-lhe: "Não poderia ser que Alexandre se tenha deixado enganar pelos artifícios de tantos maus espíritos, que não tenha ele mesmo formado tal projeto, de tentar contra vossa vida? Eu vos confesso não ver qual razão teria podido levá-lo a cometer o maior de todos os crimes, pois ele já goza de todas as honras da realeza e tem motivo de esperar suceder-vos; se ele tivesse concebido tal desígnio, seria preciso, sem dúvida, que ele tivesse sido impelido por outros que teriam abusado da pouca experiência de sua juventude, para lhe dar tão detestável conselho. Pois todos sabem que essa espécie de gente é capaz de enganar, não somente aos moços, mas mesmo os mais idosos, arruinar as famílias mais ilustres e subverter os mesmos reinos?"

Herodes, impressionado com estas palavras, sentia pouco a pouco diminuir sua animosidade contra Alexandre e irritava-se contra Feroras, que aqueles escritos acusavam claramente. Quando Feroras soube disso e viu a ascendência que Arqueiau tinha conquistado sobre o espírito de Herodes, julgou que o único meio de se salvar era recorrer a ele mesmo. Assim, foi procurá-lo e o príncipe respondeu-lhe que ele não via como poderia justificar-se de tantos crimes, pois parecia manifestamente que ele tinha tentado contra a vida do rei, seu irmão; que ele era causa de tudo o que Alexandre sofria, que o único meio que lhe restava era confessar tudo ao rei do qual sabia ser muito estimado e pedir-lhe perdão. Depois disso, prometia ajudá-lo, com todas as suas posses. Feroras seguiu aquele conselho. Tomou um hábito de luto para comover Herodes e causar-lhe compaixão, foi lançar-se aos seus pés, confessou que ele era culpado e rogou-lhe que o perdoasse de todas as faltas que a perturbação em que se encontrava seu espírito, por sua louca paixão por aquela mulher, o tinha levado a cometer. Depois que Feroras foi assim seu próprio acusador e prestanteu testemunho contra si mesmo, Arqueiau desculpou-o e acalmou a cólera de Herodes, alegando, por exemplo, que ele tinha recebido ofensas muito maiores de seu irmão; mas que tinha preferido os sentimentos da natureza aos que inspiram o desejo de vingança, porque acontece nos reinos a mesma coisa que nos corpos grandes e pesados, que os tumores caem sobre alguma parte e causam uma inflamação; mas que, em vez de se eliminar aquela parte, deve-se-lhe procurar o remédio, tentando curá-la. Arqueiau, com estas e outras semelhantes palavras, estabeleceu a paz entre ele e Feroras, mas mostrava-se sempre tão encolerizado contra Alexandre, que queria tirar-lhe a filha de qualquer modo e fez assim Herodes interceder em favor do filho, para não romper o casamento. Arqueiau respondeu que tudo o que podia fazer, para conservar a aliança, era deixar em seu poder dar a princesa em casamento a quem quisesse, contanto que a tirasse de Alexandre. Herodes retorquiu-lhe que se ele queria fazer-lhe um favor completo, como restituir-lhe o filho, ele devia deixar-lhe a esposa, pois tinha filhos dela e a amava apaixonadamente, tanto que não podia privá-lo dela sem levá-lo ao desespero: ao passo que deixando-a, a alegria de viver com uma pessoa que lhe era tão querida, fá-lo-ia mudar de vida e traria a calma ao seu espírito; nada, pois, tão capaz de acalmar os caráteres, mesmo os mais violentos, do que a consolação que se tem no recesso da família. Arqueiau acedeu a estas razões e com isso Herodes ficou muito agradecido; tendo assim reconciliado seu filho com ele, aconselhou-o a fazer uma viagem a Roma, para informar Augusto de tudo o que se havia passado, pois tendo-lhe escrito fazendo-lhe queixas do filho, a cortesia mandava que fosse ele mesmo dar-lhe contas de tudo.

Quando esse rei da Capadócia, com tal proceder, tão prudente, impediu a ruína de Alexandre e o restituiu às boas graças ao rei, seu pai, houve muitos banquetes de regozijo; quando ele partiu para regressar, Herodes deu-lhe de presente setenta talentos, um trono de ouro, enriquecido com muitas pedras preciosas, alguns eunucos e uma linda jovem de nome Paniche. Todos os seus parentes e amigos deram-lhe também, por ordem sua, muitos e magníficos presentes, e ele o acompanhou com os mais ilustres de seu reino até Antioquia.

107. Pouco tempo depois veio um homem da judéia que não somente destruiu tudo o que Arqueiau havia feito em favor de Alexandre, mas foi causa de sua morte. Era lacedemônio e chamava-se Euricles. Seu luxo, que a Grécia não tinha podido tolerar, era tão grande, que ele precisaria de tudo o que pertencia ao rei para ficar satisfeito. Conquistou o afeto de Herodes com ricos presentes e recebeu também dele, outros maiores; mas era tão mau, que nada o podia contentar, se ele não visse por seu intermédio derramar-se o sangue dos príncipes da família real. Para conseguir o seu intento, insinuou-se no espírito de Herodes, quer por seus manejos, quer pela adulação e pelos louvores que lhe dava: e como ele tinha conseguido conhecer perfeitamente o caráter de Herodes nada ele dizia nem fazia que não lhe fosse agradável, que ele ocupava um dos primeiros lugares entre seus amigos. Assim toda a corte muito o estimava, como também por causa do seu lugar de origem. Quando ele percebeu a divisão entre os irmãos e os sentimentos de Herodes para cada um deles, foi se hospedar em casa de Antipatro e, para enganar a Alexandre e conquistar confiança, insinuando-se em seu espírito, ele disse-lhe falsamente que era há muito tempo amigo do rei Arquelau, seu sogro; e o príncipe ficou persuadido disso e persuadiu também a Aristobulo, seu irmão. Depois que Euricles assim conquistou o afeto de todos os príncipes, ele agia com cada um deles, de maneira diferente, segundo julgava mais próprio para alcançar o objetivo que havia premeditado, de se unir a Antipatro e trair Alexandre. Dizia àquele que se admirava de, sendo ele o mais velho, permitia que seus irmãos lhe quisessem tirar a coroa à qual ele podia pretender, mesmo sozinho. Dizia, ao contrário, a Alexandre, que tendo sua origem de família real, sendo esposo da filha de um rei, do qual poderia obter suficiente auxílio, não compreendia como ele tolerava que Antipatro, o qual tinha por mãe uma mulher de condição medíocre, se iludisse com a esperança de suceder ao rei, no governo; estas palavras faziam tanto mais impressão no espírito de Alexandre, quanto esse velhaco lhe havia feito crer que ele era estimado pelo rei, seu sogro. Assim, não desconfiando de nada, ele lhe abria seu coração, a respeito dos desgostos que tinha por causa de Antipatro e não temia dizer-lhe que não havia motivo de se admirar de que o rei depois de ter feito morrer a rainha sua mãe, lhe quisesse tirar o reino. A esse respeito, Euricles mostrava-se tomado de grande compaixão e lamentava tão sentidamente seu infortúnio e o do príncipe Aristobulo, seu irmão, que ele não teve dificuldade em levá-lo a lhe dizer as mesmas coisas. Referiu depois a Antipatro tudo o que eles lhe tinham dito em confiança e acrescentou falsamente que eles tinham resolvido desfazer-se dele e que não havia um instante sequer em que ele não corresse perigo de vida. Antipatro agradeceu-lhe tanto esse aviso, que lhe deu uma grande soma de dinheiro, e o traidor, como recompensa, não somente o louvava perante Herodes sem cessar, mas depois de ter tratado com eles dos meios de matar Alexandre e Aristobulo, ele se ofereceu para ser seu acusador perante o rei. Assim foi procurá-lo e lhe disse que para lhe agradecer os favores que lhe devia, vinha dar-lhe um aviso, que interessava mesmo à sua vida; havia muito tempo que Alexandre e Aristobulo tinham determinado matá-lo; que eles se tinham sempre procurado fortificar-se para esse fim e que o teriam já executado, se ele não lhes tivesse impedido, fingindo querer se lhes associar; que Alexandre dizia que não era bastante ao seu pai ter usurpado a coroa, ter feito morrer a rainha, sua mãe, ter depois de sua morte continuado a gozar do poder, mas que ele queria mesmo ter a um bastardo, por sucessor, escolhendo para isso a Antipatro, despojando-o a ele e ao irmão de seus territórios, os quais seus antepassados lhes haviam deixa-do; mas que ele estava resolvido a vingar a morte de Hircano e de Mariana, pois não era justo que um homem como Antipatro subisse ao trono sem derramamento de sangue e que ele tinha todos os dias muitos motivos para continuar seus propósitos; que ele não podia dizer uma só palavra que não se tomasse logo ocasião de caluniá-lo; que se acontecesse falar-se da nobreza de alguém o rei dizia imediatamente que era para ofendê-lo, que somente Alexandre era de família ilustre e que a do pai era indigna dele; que quando ele ia à caça, achava ruim que não se louvassem as suas habilidades e, se se louvava, então chamava de adulador; que, por fim, nada podia ele fazer que não lhe fosse desagradável e que somente Antipatro tinha o dom de agradá-lo. E assim ele preferia morrer, que não viver, se sua empresa viesse a falhar; mas se desse resultado, ser-lhe-ia fácil salvar-se junto do rei Arquelau, seu sogro, e ir em seguida procurar Augusto, não para se justificar perante ele dos crimes de que o acusavam, como outrora tinha feito, dominado pelo temor que lhe causava a presença de seu pai, mas para informá-lo dos maus tratos, que ele dispensava aos seus súditos; dos enormes impostos com que os sobrecarregava, das voluptuosidades em que gastava aquele dinheiro que se podia dizer, era mais puro que o sangue das pessoas que com ele se enriqueceram e das cidades que gemiam mais sob sua cruel dominação; que, por fim, ele diria de tal modo ao imperador, da crueldade com que tinha feito morrer Hircano, seu avô e a rainha, sua mãe; que não seria mais possível, depois daquilo, passar em seu espírito por um parricida. Euricles, depois de tantas calúnias contra Alexandre, começou a louvar Antipatro; disse a Herodes que era ele o único de seus filhos que lhe tinha afeto; que ele tinha impedido até então a execução de um crime tão detestável.

A ferida que as suspeitas precedentes de Herodes tinham feito em seu coração não estava ainda bem cicatrizada, e estas palavras irritaram-no em excesso; Antipatro tomou então a ocasião para lhe dizer, por meio de outras pessoas que havia subornado, que Alexandre e Aristóbulo haviam mantido relações secretas com Jucundo e Tirano, dois oficiais de cavalaria, que ele tinha destituído do cargo, por algum motivo particular. Herodes mandou prendê-los imediatamente e os fez torturar. Nada eles confessaram do que eram acusados, mas apresentaram uma carta, que diziam escrita por Alexandre, ao governador do castelo de Alexandriom, pela qual rogava-lhe que o recebesse em sua praça com Aristóbulo, quando se tivessem desfeito do rei, seu pai, e os ajudasse com armas e todas as outras coisas. Alexandre jurou que aquela carta era falsa e tinha sido escrita por Diófano, um dos secretários do rei, que era um grande falsificador, muito perito em imitar toda sorte de caligrafia. De fato, depois ele foi condenado à morte por crimes semelhantes. Herodes mandou depois torturar aquele governador e, — embora ele nada tivesse confessado, bem como os demais e não se encontrassem provas daquilo de que acusavam seus filhos — não deixou de metê-los numa prisão, e chamando seu benfeitor e seu salvador àquele detestável Euricles, que por tão horrível maldade tinha feito lavrar um incêndio em sua família, deu-lhe cinqüenta talentos. Esse celerado, antes que a notícia da prisão daqueles dois príncipes se espalhasse, foi rapidamente procurar o rei Arquelau e teve a desfaçatez de lhe dizer que tinha reconciliado Alexandre, seu genro, com o rei seu pai, e assim, depois de ter tirado dinheiro daquele príncipe regressou para a Grécia, onde fazia mau uso dos bens que com tantos crimes havia conquistado. Por fim, tendo sido acusado perante Augusto de ter posto a perturbação em toda a Grécia e prejudicado várias cidades, foi mandado ao exílio, recebendo o castigo da traição a Alexandre e a Aristóbulo.

108.  Creio dever relatar aqui um fato, totalmente contrário ao de Euricles, de um homem de nome Varate, originário de Coos. Ele tinha vindo à corte de Herodes no mesmo tempo em que aquele pérfido lacedemônio agia de modo como acabamos de narrar, e era muito amigo de Alexandre. Herodes interrogou-o sobre coisas de que seus filhos eram acusados. Ele protestou-lhe com juramento, que nada sabia de semelhante coisa. Mas um testemunho tão sincero e tão generoso foi inútil àqueles pobres príncipes, porque Herodes não acreditou e só aceitava os que lhe falavam continuamente em seu favor.

109.  Salomé foi uma das pessoas que mais se irritou contra eles; para poder salvar-se, arruinou-os. Aristóbulo, que era ao mesmo tempo seu sobrinho e seu genro, para induzi-la a ajudá-lo e ao irmão, fez-lhe ver que ela corria o mesmo risco que eles, e disse-lhe que ela devia acautelar-se também, porque o rei tinha determinado fazê-la morrer, porque lhe haviam referido que sua paixão e seu desejo de desposar Sileu, que ele considerava seu inimigo, a levava a lhe dar secretamente aviso de tudo o que ela sabia de seus segredos. Essa imprudência de Aristóbulo foi como o último golpe do vendaval que, como uma grade tempestade, fez naufra-garem os dois príncipes. Salomé foi imediatamente referir tudo ao rei, e ele ficou de tal modo irritado e encolerizado, que não se conteve mais e mandou que acorrentassem os dois filhos e os prendessem separadamente.

110.  Mandou em seguida Volúmnio, comandante de sua cavalaria e Olímpio, um de seus amigos particulares, procurar Augusto para levar-lhe informações do que se havia passado, contra seus filhos. Quando eles chegaram a Roma e apresentaram as cartas ao grande imperador, ele ficou tomado de compaixão pela infelicidade dos jovens príncipes, mas não achou justo tirar a um pai o poder que a natureza lhe outorga sobre os filhos. Assim, escreveu a Herodes que podia dispor deles como quisesse; mas julgava que o conselho que devia antes tomar era reunir os parentes e os governadores das províncias para ponderar toda a questão e se, depois de tudo bem examinado, os filhos fossem tidos como culpa-dos, por terem tentado contra sua vida, ele podia fazê-los morrer ou, se seu intento era apenas fugir, condená-los, então, a um castigo leve.

111.  Herodes, para executar esta ordem, convocou uma grande assembléia em Berita, lugar que o imperador lhe havia indicado. Saturnino e Pedânio presidiram-na, acompanhados por Volúmnio, intendente da província. Os parentes de Herodes, no número dos quais estavam Feroras, Salomé e seus amigos, lá estavam e com eles os maiores senhores da Síria, mas Arquelau não quis comparecer, porque sendo sogro de Alexandre, era suspeito a Herodes. Quanto aos seus filhos, não os quis mandar vir; fê-los ficar sob guarda severa, numa aldeia dos sidônios, chamada Platana, porque ele julgava bem que sua presença seria capaz de mover os juizes à compaixão e, se permitisse que eles se defendessem, Alexandre justificar-se-ia facilmente, e seu irmão também, de todos os crimes de que eram acusados. Falou contra eles com ardor nessa assembléia, como se eles estivessem presentes; mas, com moderação, quando se tratava da conjuração, que pretendia terem eles urdido contra sua vida, porque disso não tinha provas; e com força, quando falava das maledicências, das censuras, das injúrias, dos ultrajes e das ofensas que dizia deles ter recebido e que afirmava serem-lhe mais intoleráveis que a mesma morte. Ninguém o contradisse e ele queixou-se daquele silêncio, que parecia condená-lo; disse que era para ele bem triste usar do poder contra seus próprios filhos e rogou em seguida que cada qual opinasse. Saturnino falou por primeiro, e disse que era de opinião que se castigassem os dois príncipes, não de morte, porque ele era pai; ele também tinha três filhos, naquela assembléia, e não podia ter um sentimento tão cruel e rude. Dois outros deputados do imperador foram da mesma opinião e alguns outros também. Volúmnio foi o primeiro que opinou pela pena de morte, e todos os outros seguiram-no; uns, para bajular Herodes, outros, pelo ódio que lhe tinham; nenhum, porque estava mesmo certo de que os príncipes merecessem tão cruel castigo. Toda a judéia e toda a Síria tinham os olhos abertos para ver qual o fim daquela deplorável tragédia e esperava-se com impaciência, sem que ninguém pudesse imaginar que Herodes chegasse até aquele excesso de desumanidade, querendo mesmo a morte de seus dois filhos. Mandou-os depois acorrentados a Tiro e de lá, pelo mar, a Cesareia, onde depois deliberaram que gênero de morte lhes seria reservado.

112. Um velho cavaleiro, então, de nome Tirom, que nutria grande amizade aos príncipes e cujo filho era muito amigo de Alexandre, ficou tomado de tão grande dor que não teve receio de dizer publicamente que não havia mais nem verdade, nem justiça no mundo; que os homens pareciam ter renunciado a todos os sentimentos da natureza e que suas ações estavam cheias de malícia e de iniqüidade. Acrescentava, ainda, tudo o que uma paixão violenta pode inspirar a um homem que tem desprezo pela vida. Foi mesmo corajosamente procurar o rei e falou-lhe deste modo: "Permiti-me, senhor, dizer-vos que vos considero o homem mais infeliz do mundo, por prestardes fé, como fazeis, a alguns celerados que querem destruir pessoas que vos devem ser mui queridas. É possível que Feroras e Salomé, que tantas vezes julgastes dignos do suplício, encontrem prestígio e crédito em vosso espírito, contra vossos próprios filhos e não percebais que seu intento é privar-vos de vossos legítimos sucessores, a fim de que não restando outro que Antípatro, seria mais fácil perder-vos? Podeis duvidar de que a morte desses dois irmãos não o torne odioso aos soldados, pois não há quem não tenha compaixão da infelicidade desses jovens príncipes e vários dos mais ilustres não temem mesmo dizê-lo abertamente?" Tirom, assim falando, citou-lhes os nomes; Herodes os mandou prender imediatamente com Tirom e seu filho. Então, um barbeiro do rei de nome Trifom, adiantou-se, e, como agitado por um movimento de frenesi, disse-lhe: "Tirom, senhor, quis persuadir-me a vos cortar a garganta com minha navalha quando eu fazia a barba a vossa majestade e prometeu-me que eu com isso receberia uma grande recompensa de Alexandre". Herodes sem titubear fez torturar Tirom, seu filho e o barbeiro. Os dois primeiros sustentaram que nada havia de mais falso do que aquela acusação de Trifom e ele nada mais disse do que já havia dito. Herodes então ordenou que torturassem ainda mais a Tirom; seu filho, não podendo tolerar que lhe infligissem tantos tormentos, disse ao rei que confessaria tudo, contanto que deixasse de supliciar seu pai. Ele o fez e então o moço disse que era verdade que seu pai estava persuadido de que Alexandre queria mesmo matá-lo. Alguns pensaram que ele assim havia falado apenas para poupar mais sofrimentos ao próprio pai, e outros estavam certos de que aquele testemunho era verdadeiro. Herodes acusou em seguida publicamente aqueles principais oficiais do exército, bem como Tirom. O povo lançou-se sobre eles e os matou a bastonadas e pedradas. Quanto a Alexandre e Aristobulo, Herodes mandou-os a Sebaste, que está perto de Cesaréia, onde os fez enforcar por sua ordem. Seus corpos foram trazidos ao castelo de Alexandriom e foram enterrados junto do de Alexandre, seu avô materno. Este o fim dos dois infelizes príncipes.

 

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