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4 de outubro de 2017

História De Israel – Teologia 31.24 - Egípcios São Cruéis aos Israelitas (Livro 2 Cap 5)

História De Israel – Teologia 31.24

CAPÍTULO 5

OS EGÍPCIOS TRATAM CRUELMENTE OS ISRAELITAS. PREDIÇÃO REALIZADA PELO
NASCIMENTO E MILAGROSA CONVERSÃO DE MOISÉS. AFILHA DO REI DO EGITO
FÃ-LO EDUCAR E O ADOTA POR FILHO. ELE COMANDA O EXÉRCITO DO EGITO
CONTRA OS ETÍOPES, OBTÉM A VITÓRIA E DESPOSA A PRINCESA DA ETIÓPIA.
OS EGÍPCIOS DESEJAM MATÁ-LO. ELE FOGE E DESPOSA AFILHA DE REUEL,
TAMBÉM CHAMADO JETRO. DEUS APARECE-LHE NUM ARBUSTO ARDENTE, NO
MONTE SINAI, E ORDENA-LHE QUE VÁ LIBERTAR O SEU POVO DA ESCRAVIDÃO.
ELE REALIZA VÁRIOS MILAGRES PERANTE FARAÓ, E DEUS FERE O EGITO COM
VÁRIAS PRAGAS. MOISÉS LIBERTA OS ISRAELITAS E GUIA-OS.

85. Êxodo 1. Como os egípcios são naturalmente preguiçosos e voluptuosos e só pensam no que lhes pode proporcionar prazer e proveito, eles olhavam com inveja a prosperidade dos hebreus e as riquezas que estes conquistavam com o trabalho. Conceberam mesmo certo temor pelo aumento do número deles. Tendo o tempo apagado a memória das obrigações que todo o Egito devia a José e tendo o reino passado a outra família, eles começaram a maltratar os israelitas e a oprimi-los com trabalhos. Empregaram-nos em cavar vários diques para deter as águas do Nilo e diversos canais para conduzi-las. Faziam-nos trabalhar na construção de muralhas para cercar as cidades e levantar pirâmides de altura prodigiosa, obrigando-os até mesmo a aprender, com dificuldade, artes e diversos ofícios. Quatrocentos anos* assim se passaram, com os egípcios procurando sempre destruir a nossa nação, e os hebreus, ao contrário, esforçando-se por vencer todos esses obstáculos.

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* O artigo 96 fala de apenas 215 anos, que é a opinião dos rabinos.

86. Esse mal foi seguido por um outro, que aumentou ainda mais o desejo que os egípcios tinham de nos perder. Um dos doutores da sua lei, ao qual eles dão o nome de escribas das coisas santas e que passam entre eles por grandes profetas, disse ao rei que naquele mesmo tempo deveria nascer um menino entre os hebreus, cuja virtude seria admirada por todo o mundo, pois aumentaria a glória de sua nação e humilharia o Egito, e cuja reputação seria imortal. O rei, assustado com a predição e seguindo o conselho daquele que lhe fazia essa advertência, publicou um edito pelo qual ordenava que se deveriam afogar todas as crianças hebréias do sexo masculino e ordenou às parteiras do Egito que ob-servassem exatamente quando as mulheres fossem dar à luz, porque não confiava nas parteiras de sua nação. Esse edito ordenava também que aqueles que se atrevessem a salvar ou criar alguma dessas crianças seriam castigados com a pena de morte, juntamente com toda a família.
Tão cruel determinação cumulou de dor os israelitas porque, ficando obrigados a ser os assassinos dos próprios filhos e não podendo sobreviver a eles senão apenas alguns anos, a extinção da raça parecia inevitável. Mas é em vão que os homens empregam os seus esforços para resistir à vontade de Deus. O menino que havia sido vaticinado veio ao mundo, foi criado ocultamente, não obstante as ordens do rei, e todas as predições a seu respeito se realizaram.
87. Um hebreu de nome Anrão, muito estimado entre os seus, vendo que a sua mulher estava grávida, ficou muito preocupado, por causa do edito que iria exterminar a sua nação. Recorreu então a Deus, rogando-lhe que tivesse compaixão de um povo que sempre o havia adorado e fizesse cessar a perseguição que os ameaçava de ruína total.
Deus, tocado por aquela oração, apareceu-lhe em sonho e disse-lhe que esperasse: que Ele se lembrava da piedade do povo e da de seus antepassados; que os recompensaria agora, tal como havia recompensado aqueles; que era por essa consideração que os fizera multiplicar-se, desde Abraão, quando este partiu sozinho da Mesopotâmia para a terra de Canaã, a quem Ele cumulou de bens e tornou a mulher fecunda, e os sucessores dele, aos quais outorgou pro-víncias inteiras: a Arábia a Ismael, Troglodita aos filhos de Quetura e o país de Canaã a Isaque; que eles não poderiam sem ingratidão e mesmo sem impieda-de esquecer os felizes êxitos obtidos na guerra pela aliança com Ele; que o nome de Jacó se tornara célebre, tanto pela felicidade na qual viveu quanto pela que legou aos seus descendentes como um direito hereditário, e porque, havendo chegado ao Egito com setenta pessoas somente, a sua posteridade multiplicou-se, atingindo o número de seiscentos mil homens; que se tranqüilizassem, pois teria cuidado de todos em geral e dele em particular; que o filho de que a sua mulher estava grávida era o menino de quem os egípcios temiam tanto o nascimento e por causa de quem faziam morrer todos os meninos dos israelitas; que ele viria, contudo, felizmente ao mundo, sem ser desco-berto pelos encarregados daquela cruel devassa; que ele, contra todas as esperanças, seria criado e educado e libertaria o seu povo da escravidão; que tão grande feito eternizaria a sua memória, não somente entre os hebreus, mas entre todas as nações da terra; que, por mérito dele, o seu irmão seria educado até tornar-se um grande sacerdote, sendo que todos os descendentes deste seriam honrados com a mesma dignidade.
Anrão narrou à sua esposa, de nome Joquebede, a visão que tivera, a qual, embora lhe fosse muito favorável, não lhes diminuiu o temor, porque não podiam deixar de se preocupar com a vida do filho. Além disso, parecia inacreditável a grande felicidade a eles prometida.
Êxodo 2. Joquebede deu à luz, e viu-se que era verdadeira a predição do oráculo. Foi um parto feliz e fácil, que as parteiras egípcias nem chegaram a conhecer. Criaram secretamente a criança durante três meses. Então Anrão, por causa da ordem do rei, temendo ser descoberto e sofrer juntamente com o filho a pena de morte e com receio de que assim o que lhe fora predito não se cumprisse, julgou conveniente abandonar à providência de Deus a conservação de uma criança que lhe era tão cara. Pensou que poderia conservar o filho em oculto, mas viveriam, ele e o menino, em perigo constante, ao passo que, entregando-o nas mãos de Deus, acreditava firmemente que Ele teria meios de confirmar a veracidade da promessa.
Após tomar essa resolução, ele e a mulher fizeram um berço de juncos do tamanho da criança e, para impedir que a água nele penetrasse, revestiram-no de betume. Puseram dentro o menino e colocaram o berço sobre as águas do rio, abandonando-o à Providência. Miriã, irmã do menino, por ordem de sua mãe, foi para o outro lado do Nilo ver o que aconteceria. Deus então mostrou claramente que todas as coisas se realizariam, não segundo os planos da sabedoria humana, mas conforme os sublimes desígnios de sua vontade. Mostrou também que aqueles que pretendem fazer perecer os outros, para proveito próprio ou para segurança particular, são muitas vezes desiludidos em suas esperanças, por mais cuidados de que se cerquem. Os que confiam somente nEle, entretanto, estarão a salvo de muitos perigos, mesmo contra qualquer probabilidade de salvação, como aconteceu a esse menino.
Como o berço flutuasse ao sabor das águas, Termutis, filha do rei, que passeava pela margem do rio, avistou-o e ordenou a alguns dos que a acompanhavam que a nado fossem buscá-lo. Trouxeram-no, e ela ficou tão encantada com a beleza da criança que não se cansava de contemplá-la. Resolveu então tomar o menino aos seus cuidados e mandar educá-lo. De sorte que, por um favor de Deus assaz extraordinário, ele foi criado no mesmo lugar onde queriam a sua morte e a ruína de sua nação.
A princesa logo ordenou que fossem procurar uma ama. Veio uma, porém a criança não quis mamar e recusou todas as outras que lhe trouxeram. Miriã, então, fingindo lá encontrar-se por acaso, disse à princesa: "É inútil, senhora, que mandeis chamar outras amas, pois elas não são da mesma nação que esta criança. Se tomardes uma ama hebréia, talvez ele não sinta aversão". Termutis aprovou a idéia e disse-lhe que fosse procurar uma. Ela foi imediatamente para casa e trouxe Joquebede, que ninguém conhecia, para ser a ama da criança, a qual deu-lhe de mamar.
A princesa ordenou-lhe que criasse o menino com todo cuidado e chamou-o Moisés, isto é, "salvo das águas", como sinal de um estranho acontecimento, pois mo, em língua egípcia, significa "água", e isés, "preservado". A predição divina realizou-se inteiramente nele, pois Moisés tornou-se a maior personagem que jamais existiu entre os hebreus. Era o sétimo desde Abraão, porque Anrão, seu pai, era filho de Coate, Coate era filho de Levi, Levi era filho de Jacó, jacó era filho de Isaque e Isaque era filho de Abraão.
À medida que Moisés crescia, demonstrava muito mais espírito e inteligência que o permitido pela sua idade. Mesmo brincando, dava sinais de que um dia seria alguém extraordinário. Quando completou três anos, Deus fez brilhar em seu rosto uma tão grande beleza que as pessoas, mesmo as mais austeras, ficavam arrebatadas. Ele atraía sobre si os olhares de todos os que o encontravam e, por mais pressa que tivessem, eram obrigados a parar para contemplá-lo.
Termutis, vendo-o cheio de tanta graça e não tendo filhos, resolveu adotá-lo. Levou-o ao rei, seu pai, e, depois de falar-lhe da beleza do menino e da inteligência que já se manifestava nele, disse: "Foi um presente que o Nilo me fez, de maneira admirável. Recebi-o em meus braços, resolvi adotá-lo e vo-lo ofereço como sucessor, pois não tendes filhos". Com essas palavras, ela o colocou entre os braços do rei, que o recebeu com prazer e, para obsequiar a filha, estreitou-o nos braços, colocando-lhe o diadema sobre a cabeça. Moisés, como uma criança, que se diverte, tirou-o e o jogou ao chão, pisando-lhe em cima.
Essa ação foi considerada de péssimo augúrio, e o doutor da lei que predissera o quanto seria funesto o nascimento daquele menino para o Egito ficou tão nervoso que desejou matá-lo imediatamente. "Eis aí, majestade", disse ele, dirigindo-se ao rei, "este menino, do qual Deus nos faz saber que a morte deve garantir a vossa paz. Vede que o fato confirma a minha predição, pois apenas nasceu e já despreza a vossa grandeza, calcando aos pés a vossa coroa. Matando-o, todavia, fareis perder aos hebreus a esperança que nele depositam e salvareis o vosso povo de um grande temor". Termutis, ouvindo-o falar desse modo, levou o menino sem que o rei se opusesse, porque Deus afastava do espírito de Faraó o pensamento de fazê-lo morrer. A princesa fê-lo educar com grande des-velo, e quanto mais os hebreus se alegravam tanto mais os egípcios se atemorizavam. Entretanto, como a ninguém viam que pudesse suceder o rei no trono ou de quem pudessem esperar um governo mais feliz quando Moisés não existisse mais, abandonaram a idéia; de fazê-lo morrer.

88. Logo que o menino, criado e educado dessa maneira, chegou à idade de poder dar provas de sua coragem, praticou atos de bravura que não permitiram mais dúvidas quanto à veracidade do que se havia sido predito, isto é, que ele elevaria a glória de sua nação e humilharia os egípcios. Eis o motivo:
A fronteira do Egito foi devastada pelos etíopes, que lhe estão próximos. Os egípcios marcharam com um exército contra eles, mas foram vencidos no combate e retiraram-se com desonra. Os etíopes, orgulhosos de tamanha vitória, julgaram que era covardia não aproveitar a boa sorte e começaram a se vangloriar de poderem conquistar todo o Egito. E lá entraram, por diversos lugares. A quantidade de despojos que arrebataram e o fato de não terem encontrado resistência alguma aumentaram-lhes a esperança de conseguir um feliz resultado na empresa. Assim, avançaram até Mênfis, chegando até o mar. Os egípcios, reconhecendo-se muito fracos para resistir a tão grande força, mandaram consultar um oráculo, e, por ordem secreta de Deus, a resposta que receberam foi que somente um homem havia — um hebreu! — do qual podiam esperar auxílio.
O rei não teve dificuldade em julgar, por essas palavras, que Moisés era o hebreu em questão, ao qual o céu destinava salvar o Egito, e pediu à filha para fazê-lo general de todo o exército. Ela consentiu e disse-lhe que julgava assim prestar ao rei um grande serviço. Contudo obrigou-o ao mesmo tempo a prometer, com juramento, que não lhe fariam mal algum. A princesa, não se contentando em testemunhar assim a sua extrema afeição por Moisés, não pôde também deixar de — com azedume — perguntar aos sacerdotes egípcios se eles não se envergonhavam de o haverem tratado como inimigo e de desejarem tirar a vida a um homem a quem eram agora obrigados a pedir auxílio.
Pode-se imaginar com que prazer Moisés obedeceu às ordens do rei e da princesa, que lhe eram tão gloriosas. E os sacerdotes das duas nações tiveram com isso, por motivos diferentes, idêntica alegria. Os egípcios esperavam que, depois de vencerem os inimigos sob o comando de Moisés, encontrariam facilmente ocasião para matá-lo, à traição. E os hebreus ansiavam, por esse mesmo motivo, sair do Egito e livrar-se da escravidão.
Esse excelente general, posto à frente do exército, logo se fez admirar pela sua prudência. Em vez de marchar ao longo do Nilo, atravessou pelo meio das terras, a fim de surpreender os inimigos, que jamais pensariam que ele os fosse alcançar por um caminho tão perigoso, devido à quantidade de serpentes de várias espécies que ali vivem: muitas delas não existem em nenhum outro lugar e não somente são temíveis pelo seu veneno, mas são horríveis de se ver, porque, tendo asas, atacam os homens elevando-se no ar, para se atirar sobre eles. Moisés, para precaver-se contra elas, mandou colocar em gaiolas algumas aves chamadas íbis, que são domesticadas, amigas do homem, e inimigas mortais das serpentes, sendo que estas as temem não menos que aos cervos. Nada mais direi sobre essas aves, porque não são desconhecidas aos gregos.
Quando Moisés chegou com o seu exército a essa tão perigosa região, soltou os pássaros e passou assim sem perigo. Então surpreendeu os etíopes, deu-lhes combate e os dispersou, fazendo-os perder a esperança de se tornarem senhores do Egito. Mas tão grande vitória não reteve os seus intentos: entrou no país deles, tomou várias cidades, saqueou-as e fez grande mortandade. Tão gloriosos resultados reanimaram de tal modo a coragem dos egípcios que eles seriam capazes de tudo empreender sob o comando de tão excelente general. Os etíopes, ao contrário, só tinham diante dos olhos a imagem da escravidão e da morte.
O ilustre general impeliu-os até Sabá, capital da Etiópia, que Cambises, rei dos persas, chamou depois de Meroe, nome de sua irmã. Aí Moisés os sitiou, embora a cidade fosse tida como inexpugnável, porque, além de suas grandes fortificações, era rodeada por três rios: o Nilo, o Astape e o Astobora, cujo percurso é muito difícil. Ficava, assim, situada numa ilha e não era menos defendida pela água que a rodeava de todos os lados que pela força de suas muralhas e de suas defesas. Os diques que a preservavam das inundações dos rios serviam ainda de terceira defesa quando os inimigos passassem as outras. Moisés ficou aborrecido ao constatar que tantas dificuldades juntas tornavam a conquista da cidade quase impossível, e o seu exército começava a enfadar-se, porque os etíopes não se atreviam mais a dar-lhes combate.
Tarlis, filha do rei da Etiópia, tendo-o visto do alto das muralhas praticar, num assalto, atos de valor e de coragem extraordinários, ficou tão cheia de admiração pela sua bravura, a qual reerguera o ânimo dos egípcios e fizera tremer a Etiópia, antes vitoriosa, que sentiu o coração ferido de amor por ele. Com a paixão sempre aumentando, mandou oferecer-lhe a mão em casamento. Ele aceitou a honra, com a condição de que ela lhe entregasse a cidade. A promessa foi confirmada com um juramento e, depois que o tratado foi feito, em boa fé de parte a parte, ele deu graças a Deus por tantos favores e reconduziu os egípcios vitoriosos de volta à sua pátria.
89. Mas esses ingratos, em vez de manifestar reconhecimento pela salvação e pela honra que deviam a Moisés, aumentaram ainda mais o seu ódio contra ele e procuraram, mais do que nunca, eliminá-lo. Temiam que a glória que conquistara o enchesse de tal modo de orgulho que ele pensasse em se tornar senhor de todo o Egito. Aconselharam o rei a mandá-lo matar, o qual deu ouvidos a tais palavras, porque a grande fama de Moisés já lhe causava inveja, e o monarca começava a temer que fosse também sobrepujado por ele. Nisso era ajudado pelos sacerdotes, que, para incitá-lo ainda mais, recordavam o rei continuamente do perigo em que se encontrava.
E assim, Faraó consentiu na morte de Moisés, e ela seria inevitável, se este não houvesse descoberto a intenção dos egípcios e se ausentado no momento oportuno. Moisés fugiu para o deserto e desse modo salvou-se, porque os inimigos não podiam imaginar que ele tomaria tal caminho. Como nada encontrasse para comer, viu-se atormentado por uma fome extrema, mas a suportou com paciência e, depois de haver andado muito, chegou, pelo meio-dia, próximo da cidade de Midiã — nome que lhe deu um dos filhos de Abraão e Quetura —, à beira do mar Vermelho. Estando muito cansado, sentou-se à beira de um poço, para repousar, e esse fato deu-lhe ocasião de mostrar a sua coragem, abrindo o caminho para uma sorte melhor. Eis como tudo se passou:
Um sacerdote chamado Reuel, ou Jetro, muito estimado entre os seus, tinha sete filhas, que, segundo o costume das mulheres de Troglodita, cuidavam dos rebanhos do pai. Ora, como a água doce é muito rara naquelas paragens, os pastores e pastoras iam solicitamente buscá-la, para dar de beber aos animais. Assim, as irmãs vieram naquele dia por primeiro ao poço, tiraram água e encheram as suas vasilhas para dar de beber aos carneiros e ovelhas. Mas alguns pastores que ali chegaram maltrataram-nas e tomaram a água que elas tinham tido o trabalho de tirar. Moisés, enraivecido por tal violência, julgou que não devia absolutamente permiti-la. Espancou os insolentes e afugentou-os, auxiliando as moças no que a justiça pedia dele. Elas contaram ao pai o que ele havia feito em favor delas e rogaram-lhe que mostrasse o seu reconhecimento para com o estrangeiro, pelo auxílio que lhes prestara. Reuel louvou a gratidão das filhas e mandou chamar Moisés. E não se contentou em agradecer uma ação tão generosa, mas lhe deu Zípora, uma de suas filhas, em casamento e a superintendência de todos os seus rebanhos, no que consistia, então, a riqueza dessa nação.
90. Êxodo 3 e 4. Moisés morava então com o sogro e cuidava dos rebanhos deste. Um dia, levou-os a pastar no monte Sinai,* que é o mais alto de todos os da província, muito rica em pastagens. Isso porque> aJém da fertilidade natural, os outros pastores lá não iam por causa da santidade do lugar, onde, dizia-se, Deus morava. E lá ele teve uma visão maravilhosa. Viu uma sarça ardente, de tal modo rodeada pelas chamas que parecia dever queimar-se, e no entanto nem as folhas, nem as flores e nem os ramos eram danificados.
Tal prodígio deixou-o atônito: nunca, porém, o medo foi maior do que quando ouviu sair do meio da sarça uma voz, que o chamou pelo nome e perguntou-lhe como se atrevera ir a um lugar santo, do qual nenhum outro antes se aproximara. Mandou-lhe que se afastasse da chama, não se deixando levar pela curiosidade, e se contentasse com o que merecera ver, sendo um digno sucessor da virtude de seus antepassados. A voz predisse-lhe, em seguida, a glória que ele deveria conquistar: com o auxílio que receberia de Deus, tornar-se-ia célebre entre os homens. Ordenou-lhe que voltasse sem temor para o Egito, a fim de libertar os hebreus de sua cruel escravidão. "Pois", acrescentou a mesma voz, "eles tornar-se-ão senhores do mesmo país rico em todas as espécies de bens que Abraão, o chefe de vossa raça, possuiu e serão devedores de tão grande felicidade à vossa sábia direção. Mas, depois que os tiverdes tirado do Egito, não deixeis de oferecer um sacrifício neste mesmo lugar".
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* Em diversas passagens da Bíblia, esse monte é chamado Horebe, onde Moisés promulgou a Lei. Muitos o confundem com o Sinai. Uma tradição local coloca o Horebe no pico Safsafe do maciço montanhoso e o Sinai em outro, mais elevado, a meio dia de distância. Mas alguns estudiosos sustentam, ao contrário, que Horebe é o verdadeiro nome de todo o maciço, enquanto o Sinai seria apenas uma denominação derivada do deus lunar Sim, venerado talvez nesse lugar. (N do E)

91. Moisés, ainda mais admirado pelo que acabava de ouvir do que pelo que tinha visto, disse: "Grande Deus, do qual adoro a onipotência, que tantas vezes fizestes brilhar em favor de meus antepassados, eu não poderia, sem extrema loucura, desobedecer às vossas ordens. Mas como sou um simples homem, sem autoridade, temo não poder persuadir esse povo a abandonar um país onde se estabeleceu há tão longo tempo para seguir-me aonde eu o quiser levar. E, mesmo se os convencer, como poderei obrigar o rei a permitir que se retirem, sendo que o Egito deve ao trabalho deles a felicidade que agora desfruta?"
Tendo Moisés assim falado, mandou-o Deus confiar na aliança, garantindo-lhe que não o abandonaria na direção daquele empreendimento e prometendo pôr-Ihe na boca as palavras, quando tivesse necessidade de persuadir e fosse preciso revesti-las com poder, quando fosse o momento de agir. Para dar-lhe uma prova, ordenou que ele lançasse na terra a vara que trazia na mão. Moisés obedeceu, e ela no mesmo instante transformou-se numa serpente, que se pôs a rastejar, movendo a cauda e levantando a cabeça, como para se defender ou como se a quisessem atacar. De repente a cobra desapareceu, e a vara voltou a ser o que era.
Em seguida, Deus ordenou a Moisés que pusesse a mão no seio. Ele o fez e retirou-a branca como a cal, mas imediatamente ela também voltou ao primitivo estado. Ordenou-lhe ainda que tirasse água de um lugar ali perto. Ele o fez, e a água converteu-se em sangue. E Deus, vendo que tais prodígios o deixavam atônito, disse-lhe que tomasse ânimo com a certeza de seu auxílio; que lhe confirmaria a missão com milagres semelhantes; e que partisse imediatamente, caminhando dia e noite, para ir libertar o seu povo, porque Ele não podia mais suportar os gemidos deles, em tão dura servidão.
Moisés, não podendo, depois do que acabava de ver e ouvir, duvidar mais do efeito das promessas divinas, rogou a Deus que, no Egito, lhe desse o mesmo poder de fazer aqueles milagres com que o favorecia naquele momento e acrescentasse à graça de ter-se dignado fazê-lo ouvir a sua voz a de lhe dizer o seu nome, a fim de que ele pudesse melhor invocá-lo quando lhe oferecesse um sacrifício. Deus concedeu-lhe esse favor, que jamais fizera a qualquer outro neste mundo, mas não me é permitido repetir esse nome. [Esse nome é Jeová.]
92. Moisés, certo do auxílio de Deus e do poder que Ele lhe dava para fazer milagres todas as vezes que julgasse necessário, concebeu grande esperança de libertar os hebreus e humilhar os egípcios. Soube nesse mesmo tempo da morte de Faraó, sob cujo reinado ele fugira do Egito. E assim, rogou a Reuel, seu sogro, que lhe permitisse voltar para lá, para o bem de sua nação. E não teve dificuldade em obter o consentimento.
Moisés pôs-se logo a caminho, com a sua mulher e com Gérson e Eliézer, seus filhos, dos quais o nome do primeiro significa "peregrino", e o do segundo, "auxílio de Deus", porque por meio daquele auxílio Deus o preservara das ciladas dos egípcios. Arão, seu irmão, veio, por ordem de Deus, encontrá-lo na fronteira do Egito, e Moisés narrou-lhe tudo o que acontecera no monte e as ordens que de Deus recebera. Os principais israelitas vieram também ter com ele e, para obrigá-los a crer em suas palavras, fez na presença deles, pelo poder que havia recebido, vários prodígios. O espanto que deles se apoderou certificou-os da verdade, e começaram a esperar tudo do auxílio de Deus.
93. Êxodo 5. Assim, vendo Moisés que o ardente desejo de se libertar da escravidão levava os hebreus a render-lhe inteira obediência, foi ter com o novo rei. Falou-lhe dos serviços que prestara ao seu antecessor contra os etíopes e de como fora recompensado: somente com ingratidão. Contou-lhe o que Deus lhe dissera no monte Sinai e os milagres que Ele havia feito para obrigá-lo a dar fé às suas promessas. Suplicou-lhe que não resistisse com incredulidade à vontade daquele soberano Senhor dos reis. Faraó, no entanto, zombou de suas palavras, e então Moisés fez em sua presença os mesmos prodígios que havia feito no monte Sinai.
Êxodo 7. O príncipe, em vez de ficar convencido, enfureceu-se. Disse que Moisés era mau e que depois de ter fugido, para evitar a escravidão, se havia feito iniciar na magia, a fim de enganá-lo por meio de artes diabólicas. Mas ele, Faraó, tinha também sacerdotes de sua fé, que poderiam fazer os mesmos prodígios. Assim, Moisés não devia se vangloriar de ser o único ao qual Deus concedera aquela graça e nem iludir o povo simples, persuadindo-o de que havia nele algo divino. E mandou buscar os seus sacerdotes. Eles lançaram as suas varas ao chão, e estas se converteram em serpentes.
Moisés, sem se espantar, respondeu ao rei: "Eu não desprezo, majestade, a ciência dos egípcios, mas o que faço está tão acima dos conhecimentos deles e de sua magia quanto a distância entre as coisas divinas e as humanas, e vou mostrar claramente que os milagres que faço não têm, como os deles, uma vã aparência de verdade, para enganar os simples e os crédulos, mas procedem da virtude e do poder de Deus". Dizendo essas palavras, atirou a vara ao chão e ordenou-lhe que se mudasse em serpente. Ela obedeceu à sua voz e devorou as dos egípcios, que pareciam ser outras tantas serpentes. Voltou em seguida à sua forma primitiva e Moisés a retomou na mão.
O rei, em vez de admirar tão grande maravilha, irritou-se ainda mais e, depois de ter dito a Moisés que a sua ciência e os seus artifícios ser-lhe-iam inúteis, ordenou ao que tinha a direção das obras confiadas aos israelitas que as aumentasse ainda mais. Assim, esse indivíduo mandou retirar a palha que costumava fornecer para os tijolos, de modo que, depois de ter labutado durante todo o dia, tinham de ir procurá-la durante a noite, o que lhes dobrava o trabalho [Êx 5].
Moisés, sem se incomodar com as ameaças do rei nem se comover com as queixas contínuas dos hebreus, que diziam que todos os esforços dele só estavam servindo para fazê-los sofrer ainda mais, continuou firme no cumprimento de sua missão. E, como a havia empreendido por um ardente desejo de libertá-los, deliberou consegui-la, contra a vontade do rei e contra a opinião deles mesmos.
Voltou então a falar ao príncipe, para pedir que os hebreus fossem ao monte Sinai oferecer um sacrifício a Deus, como Ele o havia ordenado. Disse que Faraó não se devia opor à vontade do céu, mas que, enquanto Deus lhe era ainda favorável, o seu próprio interesse o obrigava a conceder àquele povo a liberdade que lhe pedia. Se ele se recusasse, só poderia depois acusar a si mesmo de ser a causa da própria desgraça, pois atrairia sobre si, por sua desobediência, toda sorte de castigos: ver-se-ia sem filhos; o ar, a terra e todos os outros elementos ser-lhe-iam contrários e tornar-se-iam ministros da vingança divina; e, por fim, os hebreus não deixariam de sair de seu reino, ainda que ele não o quisesse consentir, e os egípcios não evitariam o castigo de sua obstinação.
94. As palavras de Moisés não fizeram impressão no espírito do rei, e os egípcios foram amargurados por toda espécie de males. Narrá-los-ei em particular, tanto porque são extraordinários quanto para fazer conhecer a verdade do que Moisés havia predito e também para manifestar aos homens quanto lhes importa não irritar a Deus, que pode punir os pecados com tão terríveis castigos.
Êxodo 7. A água do Nilo foi mudada em sangue, e, como o Egito não possui fontes, o povo descobriu que a sede é o maior de todos os males. A água do rio não somente adquirira a cor do sangue, mas o povo não conseguia bebê-la sem sentir dores violentas. Os israelitas, ao contrário, a achavam tão potável e boa quanto a comum. O rei, admirado por esse prodígio e temendo por seus súditos, permitiu aos hebreus que se retirassem. Não havia, porém, o mal cessado de todo, e ele retomou aos antigos sentimentos: revogou a ordem e a licença. Deus, para castigá-lo por ter reconhecido tão mal a graça que fizera a ele, livrando-o daquele flagelo, feriu o Egito com uma nova praga.
Êxodo 8e9. Um número incalculável de rãs cobriu a terra, e comiam tudo o que ela produzia. O Nilo ficou também cheio delas, e uma parte, que morreu nas águas do rio, tornou-o infecto, de tal sorte que não mais se podia beber da sua água. Também o lodo dos campos produziu uma quantidade enorme desses animais, que com a decomposição formaram outro pantanal, ainda mais horrível que o primeiro. As rãs entravam até nas casas, nas vasilhas, nos pratos, estragavam todos os alimentos, pulavam sobre as camas e envenenavam o ar com o mau cheiro. O rei, vendo o seu país em tal miséria, ordenou a Moisés que partisse para onde quisesse, com todos os de sua nação. Imediatamente todas as rãs desapareceram, e as terras e os rios voltaram ao seu estado primitivo. O rei então esqueceu o mal que tanto temor lhe havia causado e, como se quisesse experimentar males ainda maiores, revogou a licença que de mau grado concedera.
Deus então castigou-o por ter faltado à palavra, coisa indigna de um príncipe, e os egípcios ficaram todos cheios de piolhos, em tal quantidade que eram miseravelmente comidos por eles, sem que pudessem encontrar remédio algum para isso. Esse tão grande e tão vergonhoso mal espantou o rei e ele permitiu aos hebreus que partissem. Mas, apenas cessou o mal, ele determinou que as mulheres e os filhos dos hebreus ficassem como reféns.
Percebendo Deus que o rei estava convencido de que era capaz de afastar qualquer tempestade que desabasse para destruir o seu reino, como se fosse Moisés, e não Ele, quem castigava a ele e ao seu povo por causa da cruel perseguição movida contra os hebreus, enviou sobre o Egito uma imensa multidão de diversas espécies de pequenos animais, até então desconhecidos. A terra ficou totalmente coberta deles, e era impossível cultivá-la. Muitas pessoas vieram a morrer. As que sobreviviam eram contaminadas pelo veneno deles, que causava outros tantos males, doenças e até mesmo a morte. Mas nem isso foi suficiente para levar o rei a uma inteira obediência à vontade de Deus. Ele contentou-se em permitir às mulheres que fossem com os maridos, ordenando que os filhos ficassem.
A grande obstinação desse príncipe em resistir às ordens de Deus atraiu sobre os seus súditos, por causa dele, outros males ainda maiores que os precedentes. Todos foram cobertos de chagas e úlceras, e muitos morreram miseravelmente. Tão terrível flagelo, porém, não foi capaz de tocar o coração de Faraó, e Deus feriu o Egito com uma praga de que nunca se havia falado. Fez cair uma chuva de granizo tão forte e espessa e de tamanho tão grande que nunca se vira semelhante, nem mesmo nos países que a isso estão sujeitos, e estava-se, no entanto, muito antes da primavera. A chuva estragou todos os frutos. Depois veio uma nuvem de gafanhotos, que destruiu o que restava, de sorte que os egípcios per-deram qualquer esperança de obter alguma colheita.
Se o rei tivesse apenas falta de inteligência, não teriam tantos males juntos feito com que caísse em si mesmo, para dar-lhe remédio? Mas bem que ele lhes compreendeu o motivo, e a sua malícia foi tão grande que continuou a se opor à vontade de Deus, como se lhe pudesse resistir, e nem mesmo a consideração de salvar o seu próprio povo, que ele via perecer diante de seus olhos, foi capaz de contê-lo. Assim, ele contentou-se em permitira Moisés levar os israelitas com as suas esposas e filhos, mas com a condição de deixarem todos os seus bens aos egípcios, para compensar as perdas que haviam sofrido. Moisés fez-lhe ver que aquela proposta não era justa, pois seria pôr os hebreus na impossibilidade de oferecer sacrifícios.
Êxodo 10, 11 e 12. Enquanto o tempo se passava nessas altercações, os egípcios foram envolvidos por trevas espessas, e, não tendo a menor claridade para se guiar, muitos pereceram de diversas maneiras, enquanto outros temiam semelhante infelicidade. As trevas duraram três dias e três noites, sem que Faraó se decidisse deixar sair os israelitas. Depois que elas se dissiparam, Moisés foi ter com ele e disse-lhe: "Até quando, majestade, resistireis à vontade de Deus? Ele vos ordena que deixeis sair os hebreus, e não tendes outro meio de vos livrardes de tantos flagelos que vos atormentam". O rei, fora de si pela cólera, ameaçou mandar cortar-lhe a cabeça se ousasse continuar a falar ao rei daquele modo. Moisés então respondeu que, de fato, não lhe falaria novamente. Estava certo de que o próprio rei e os principais de seu reino lhe pediriam que se retirasse com os israelitas.
Deus, irritado pela resistência de Faraó, decidiu ferir os egípcios com mais uma praga, que certamente os obrigaria a deixar sair o povo. Ele determinou que Moisés preparasse os israelitas para oferecer-lhe um sacrifício no décimo terceiro dia do mês que os egípcios chamam farmute, os hebreus, nisã, e os macedônios, xântico, e que se conservassem prontos para a partida e levassem consigo todos os bens que possuíam. Moisés obedeceu e reuniu-os, distribuindo-os por grupos e companhias.
Ao raiar do décimo quarto dia, como Deus havia marcado, começaram a oferecer o sacrifício: purificaram as suas casas, lançando-lhes sangue com um ramalhete de hissopo, e depois de terem ceado queimaram tudo o que havia restado do alimento, estando prontos para partir. Nós observamos ainda esse costume e damos à festa o nome de Páscoa, isto é, "passagem", porque foi nessa noite que Deus, passando pelos israelitas sem lhes causar mal algum, feriu os egípcios com esta grande praga: todos os primogênitos morreram. Tão grande e geral aflição fez correr o povo em massa ao palácio do rei, para suplicar-lhe que deixasse sair os hebreus.
95. Assim, não podendo mais resistir, o rei deu a permissão a Moisés, na certeza de que apenas os hebreus tivessem partido terminariam os males que atormentavam o Egito. Os próprios egípcios deram-lhes presentes, uns pelo desejo de os ver bem longe, outros pelo costume da terra, testemunhando até com lágrimas que estavam arrependidos dos maus-tratos que lhes haviam infligido.
Os israelitas partiram pela cidade de Leté, que então estava deserta e onde Cambises, quando depois devastou o Egito, construiu outra cidade, a que chamou Babilônia. Dali caminharam para Baal-Zefom, cidade que está à beira do mar Vermelho. Como o lugar era muito deserto e nada tinham para comer, misturaram farinha com água, amassaram como puderam e a puseram ao fogo, alimentando-se assim durante trinta dias. No fim desse tempo, todavia, a farinha lhes veio a faltar, embora tivessem economizado bastante. É em memória dessa necessidade pela qual passaram que celebramos ainda hoje, durante oito dias, uma festa que chamamos dos Asmos, isto é, de pão sem fermento. A multidão do povo podia-se dizer inumerável, pois além das mulheres e das crianças, havia seiscentos mil homens capazes de pegar em armas.


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